Conheça a história da parteira Angélique du Coudray, médica que devolveu a prática da obstetrícia às mulheres na França e criou o primeiro manequim obstétrico em tamanho real.

A Primeira Matrona Parteira da França

Em 1715, na região dos alpes franceses, nascia Angélique du Coudray. Apesar de ter sido o século da Revolução Francesa (já no final do centênio), o século XVIII definitivamente não foi o mais fácil para as mulheres. Ter nascido numa família classe média e de tradição médica ajudou que Angélique du Coudray pudesse receber instruções de Medicina de Anne Bairsin, Dama Philibet Magin, durante três anos.

Para ser oficialmente reconhecida como Parteira e Médica Cirurgiã, era preciso passar nos exames de qualificação e no teste da École de Chirurgie de Paris (Escola de Cirurgia). Isso não só exigia uma soma avultante de dinheiro na altura, como também era uma façanha para poucos: mulheres não eram permitidas pela Faculdade de Medicina da Universidade de Paris. Angélique então organizou uma petição que demandava que a Faculdade aceitasse estudantes e parteiras e foi, assim, aceita na instituição.

Retrato de Madame Angelique Du Coudray

A banca de examinação era composta pelo Primeiro Cirurgião do Rei, vários cirurgiões parisienses, vários decanos da Faculdade de Medicina e da Escola Real de Cirurgia, Quatro parteiras juramentadas de Paris ligadas ao Chatelêt, e um considerável número de examinadores, mestres catedátricos e Membros do Conselho. E, claro, apenas provar suas aptidões profissionais e conhecimento acadêmico não bastava: era preciso ainda ser avaliada pela sociedade. Uma parte do “teste” envolvia entrevista às mais diversas e numerosas pessoas da idade, desde padres a vizinhos ou sapateiros e comerciantes, para “atestar” o “bom caráter” da examinada.

E foi assim que, aos 25 anos, após ser testada, examinada, sabatinada e avaliada por profissionais, acadêmicos, conselheiros, médicos e, bem, pela sociedade em geral, Angélique recebeu o título de “Senhora Parteira Matrona da Cidade e dos Arredores de Paris”. O juramento final para receber a aprovação e ser formalmente aceita nas fileiras de parteiras da França envolvia ainda prometer jamais prescrever remédios abortivos, pedir ajuda aos mestres, ser fiel ao rei e jurar defender a fé católica, apostólica e romana.

Uma petição pelas mulheres parteiras

Angélique foi aprovada, mas sua conquista claramente não era bem-vista pela classe médica e masculina na cidade. É preciso lembrar que já nessa altura a Medicina era uma instituição quase inteiramente masculina. Nos últimos 300 anos, a Europa tinha visto e levado a cabo uma intensa Caça às Bruxas que, entre outras coisas, expurgou mulheres dos seus até então saberes ancestrais e domínios, como o parto e prática da cura. Além disso, mulheres não tinham muitos direitos no século XVIII – e estudar e ter uma carreira profissional certamente não era um consenso.

Em 1743, apenas 3 anos depois da sua aprovação, a Escola de Cirurgia voltou barrar a entrada de mulheres parteiras. Isso porque a profissão de Cirurgião começava a ganhar fama e prestígio e os homens queriam manter o círculo restrito através da proibição da entrada de mulheres no campo, reduzindo a “concorrência”. Angélique du Coudray organizou, junto de outras parteiras, uma nova petição, acusando os cirurgiões de negligência para com a ética e seus deveres médicos.

Angélique argumentou que, ao recusarem-se a dar instruções às parteiras, os cirurgiões estavam permitindo que as parteiras recebessem formação inapropriada, o que implicaria menos parteiras oficialmente acreditadas e potencialmente acarretando em danos aos pacientes. A petição e as acusações de Angélique causaram divisões entre a classe médica e de cirurgiões e, para proteger a sua posição e se distinguirem dos cirurgiões, os médicos pressionaram para que a Faculdade voltasse a aceitar as parteiras nas fileiras da Escola de Cirurgia.

Vencido o obstáculo e com as mulheres de volta às instruções, Angélique se tornou uma figura conhecida em Paris, principalmente por ter levado ao patamar político algo que parecia estar sufocado nas mesquinharias masculinas do círculo médico.

A luta pelo parto e contra a mortalidade infantil

Em 1759, Angélique du Coudray junta seus conhecimentos de medicina e sua perspicácia pedagógica e cria dois marcos na obstetrícia: o primeiro manequim obstétrico em tamanho real, chamado “A Máquina”, e seu livro “Abrégé de l’art des accouchements” (em Português, “Compêndio da Arte do Parto”).

O livro era uma revisão e também expansão de um livro de obstetrícia de 1667 e trazia importantes críticas e ilustrações coloridas sobre os perigos das manobras aplicadas pelos médicos nos partos. Seu livro foi traduzido para várias línguas, incluindo o Alemão, Holandês e Inglês. Já o manequim servia para simular e demonstrar o parto, permitindo às parteiras perceber o espaço e como prestar assistência durante o nascimento.

O manequim de Angélique du Coudray, conhecido como “A Máquina”. Créditos da foto: VEIN Magazine

O manequim era feito de pele, couro e podia incluir ossos humanos reais para formar o tronco da mulher que dava à luz, sendo que a “máquina” incluía um bebê no útero. Várias cordas e tiras eram utilizadas para simular o alongamento do canal de parto e do períneo de forma a demonstrar o processo de parto. O rosto do bebê tinha um nariz cuidadosamente moldado, orelhas costuradas, cabelo desenhado com tinta e uma boca aberta (com língua) na qual um dedo pode ser inserido a uma profundidade de 5 centímetros. Este detalhe era importante, pois permitia à parteira colocar dois dedos na boca para facilitar a passagem da cabeça num caso de parto pélvivo.

Munida desse novo “arsenal” pedagógico, nesse mesmo ano Angélique du Coudray engendra aquele que foi, provavelmente, o seu mais importante legado na França do século XVIII. Um projeto para educar mulheres camponesas na prática da parteira com o objetivo de reduzir a mortalidade infantil. Essa era uma preocupação emergente na França, pois o país vivia um declínio de nascimentos seguido da Guerra dos Sete Anos e as faltas de condições sanitárias e assistência à saúde eram brutais.

Foi assim que Angélique du Coudray conseguiu que o próprio Rei Luis XV patrocinasse a sua missão. A parteira passaria então os próximos 23 anos, de 1760 a 1783, viajando toda a extensão rural da França para formar mulheres parteiras entre a população mais pobre do país.

Curiosidade: Luis XV vs Luis XIV
Parece irônico notar que enquanto o Rei Luis XV patrocinou uma mulher parteira para que pudesse viajar e formar mais parteiras, o seu pai e antecessor direto, Rei Luis XIV, foi diretamente responsável pela implementação da posição litotômica (deitada) como imposição médica para mulheres na hora do parto. Conta a história que o Rei Luis XIV não queria abaixar para ver o nascimento do seu filho e, por isso, ordenou que os médicos colocassem sua esposa deitada, apesar de ser a pior posição para um parto normal, visto que obriga a mulher a fazer força contra a gravidade.

Estima-se que Angélique du Coudray tenha formado diretamente mais de 4000 parteiras em mais de 40 cidades e vilas da França. Além disso, suas estudantes teriam formado mai 6000 outras mulheres. Adicionalmente, talvez por ironia do destino, a parteira instruiu ainda outros 500 cirurgiões e fisicistas, todos homens.

A matrona e parteira parisiense não terminou sua jornada na longa viagem de 23 anos de instrução da parteira. Ao longo de sua vida, Angélique du Coudray formou mais de 30.000 estudantes e seu comprometimento com a educação e instrução da prática de parteria se tornou um verdadeiro símbolo do avanço da medicina na França.

A morte de Angélique du Coudray permanece envolta em mistérios, com muitas teorias, mas nenhum registro documento factual sobre o que realmente aconteceu. Sabe-se, contudo, que a parteira faleceu em Bordeaux, em 1794, após a Revolução Francesa. Enquanto há acadêmicos que acreditam que a parteira tenha sido morta durante os massacres do período revolucionário pela sua ligação ao monarca francês, outros acreditam que ela simplesmente tenha morrido pela idade avançada.


Referências Bibliográficas

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