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Há sete anos, emigrei de Cuiabá para Portugal com um filho pequeno no colo e sem emprego ou planos. Hoje, vou partilhar o que aprendi e o que gostaria de saber quando tomei essa decisão lá em 2016, e que talvez possam ajudar no seu planejamento.

Emigrando para Portugal com filhos pequenos
Eu e meu companheiro no aeroporto de Cuiabá, em janeiro de 2016, aguardando nosso voo só de ida para Portugal

Quem é mãe e nunca pensou em emigrar do Brasil que atire a primeira pedra!


Não vou mentir: sinto falta do Brasil todos os dias. E nada como sair do nosso país para passar a achá-lo maravilhoso! Mas se você, como eu, vem de uma cidade fora do eixo Rio-São Paulo ou é mãe de uma criança atípica ou simplesmente está cansada da violência e insegurança infelizmente tão comuns no dia a dia brasileiro, certamente já considerou (e provavelmente mais de uma vez) largar tudo e emigrar de mala e cuia com os filhos no colo. Eu fiz isso há sete anos.


Portugal costuma ser um dos destinos mais procurados pelos brasileiros pela facilidade de termos uma língua em comum, o que facilita na adaptação, especialmente para quem não fala outras línguas. Porém, emigrar é uma jornada cheia de desafios, inseguranças e descobertas. Eu fiz essa mudança com apenas 24 anos e um filho pequeno no colo. Há muitas coisas que sei agora e que gostaria que alguém tivesse me contado lá atrás, quando tomei essa decisão.

 

Este texto é um relato pessoal, mas também o acúmulo de conhecimento de sete anos fora do Brasil, que quero compartilhar com vocês.

Emigrei para Portugal com um bebê de colo

Eu saí de Cuiabá rumo a Portugal em Janeiro de 2016 com o objetivo de buscar melhor tratamento de saúde para o meu filho e mais qualidade de vida para nossa família.


Meu filho nasceu em 2014 com catarata congênita bilateral total, que o impediu de enxergar até os 4 meses de idade, quando passou por uma cirurgia de remoção dos cristalinos. Sabíamos que ele ainda precisaria fazer outras cirurgias: para implantar lentes intraoculares no futuro, para corrigir o estrabismo resultante da catarata… E também precisaria de acompanhamento oftalmológico intensivo ao longo da sua infância. Este foi um dos principais motivos que motivou nossa emigração.

Eu não tinha terminado a faculdade, mas estava no último ano de estágio probatório de um cargo público no Estado – ou seja, a um passo da sonhada estabilidade. E não foi fácil planejar deixar a minha zona de conforto — o lugar onde nasci e cresci, onde tinha amigos e familiares, conhecia tudo e o emprego estável na função pública — para dar um tiro no escuro: emigrar sem contrato, sem saber se arranjaria emprego e sem sequer ter um diploma universitário que me desse segurança. Além disso, não tínhamos grandes reservas financeiras.

Mas não, não fomos “na completa loucura” e esse texto não é para incentivar DE MODO ALGUM a emigração sem planejamento. Meu companheiro é português e toda a família dele estava em Portugal, o que facilitava todo o resto: poderíamos ficar numa das casas da família dele inicialmente, sem pagar aluguel. Teríamos a família como rede de apoio. Sobretudo, porque ele era português, nosso filho poderia ser naturalizado Português também, o que me permitia solicitar o Visto de Reagrupamento Familiar, que dá o direito de viver e trabalhar em Portugal. Ou seja, mesmo sem grandes reservas financeiras, tínhamos amparo. Não começamos do zero.

Sete anos como mãe imigrante: o que aprendi?

viagem em familia Europa
Nossa viagem em família mais recente, fizemos uma roadtrip pela costa galega, na Espanha. A foto é em Finisterra.

Agora, já faz sete anos que estou em Portugal. Durante todo esse tempo, fui ao Brasil apenas duas vezes, de férias, para visitar minha família. Morei em 5 cidades diferentes em Portugal, tanto no Norte como no Sul do país, incluindo a capital, Lisboa, e a “capital do Norte”, o Porto. Também morei em uma vila com menos de 20 mil habitantes e numa cidade do interior, a terceira maior do país (Braga).


Portanto, o que partilho aqui reflete a minha experiência em diferentes contextos: cidades grandes cosmopolitas, cidades menores em desenvolvimento e vilas nas quais meus vizinhos eram rebanhos de ovelhas e parreirais.

  • Rede de Apoio não é brincadeira: a gente sente muita falta da família e dos amigos. Estar num país novo em que temos de reaprender tudo de novo (como funciona politicamente, as leis, as instituições públicas, o sistema de saúde, o sistema de ensino, os transportes, os modos e referências culturais das pessoas) é muito exaustivo e suga nosso emocional. Vai ter dias difíceis, muito difíceis.

    Vai ter dias de querer sumir do mapa, de querer chorar no ombro da amiga, de fugir para a casa da mãe. E se nenhuma dessas pessoas estiver ao seu alcance no novo país, o isolamento é um inimigo duro. Por isso, se não conhece ninguém no país novo, busque imediatamente se envolver em círculos sociais desde o início para facilitar a transição e aprender com a experiência dos outros.


  • Não largue tudo para acompanhar um homem: eu sei, eu sei… ele é ótimo, o amor, a paixão, pai dos meus filhos, etc, blablabla. Mas não dá. Sua estabilidade emocional e financeira é muito importante (eu falo disso no texto Não emigre por amor, só clicar para ler). Não apenas para a sua própria confiança, bem-estar e saúde mental, mas também para a sua segurança. Uma mulher, mãe, num país estranho, começando do zero, sem renda, sem segurança, sem emprego, dependendo de um homem… é uma pessoa vulnerável. E quando nós estamos vulneráveis, nossos filhos também estão. Prepare o seu terreno sempre!

Prós e Contras de Emigrar com Crianças para Portugal

Bom, nem tudo são flores, mas nem tudo são espinhos também. Vou focar em Portugal, porque é a minha experiência, mas vários desses pontos também servem para qualquer outro país. Quais são os prós e contras de emigrar com filhos pequenos?

PRÓS

Educação Pública Integral

Em Portugal, o ensino é público, gratuito e obrigatório a partir dos 6 anos de idade. A escola funciona das 8h às 18h (na verdade, de 9h às 5h, mas frequentemente têm programas de “extensão de horário” para pais que trabalham), oferece almoço e lanche duas vezes por dia. Todas as minhas experiências nas escolas foram muito positivas, com equipes multidisciplinares (que inclusive ajudaram a identificar o autismo do meu filho e ofereceram apoio para a baixa visão) e excelente infra-estrutura.

 

Saúde pública de qualidade

O sistema de saúde público? Simplesmente excepcional! Graças à revolução comunista de 25 de Abril, Portugal tem um sistema de saúde pública referência no mundo todo. Meu filho implantou lentes intraoculares nos dois olhos, fez cirurgia de estrabismo, já ficou internado por dias e tudo sem pagar um euro (no Brasil, só as lentes sairiam cerca de 10 mil reais cada, sem contar a cirurgia). Uma cobertura que nos dá paz de espírito, sabendo que estamos em boas mãos. Além disso, eles têm o modelo de “médico de família”: você se inscreve no centro de saúde e o mesmo médico irá acompanhar a família toda, o que permite identificar históricos familiares e atuar na prevenção de questões genéticas ou predisposições a algumas enfermidades.

 

Boa cobertura de transporte público

Os transportes públicos não são gratuitos, mas são diversos e muito bons. E mais acessíveis que no Brasil. Em Lisboa, por exemplo, é possível morar em regiões periféricas (que são mais baratas que o centro), e ter acesso ao metro, comboio (trem) e até barco para cruzar o rio. Isso faz toda a diferença, pois não é preciso ter carro e gastar com gasolina para ter boa mobilidade no dia a dia.

 

Comunidade brasileira gigante

Somos uma das maiores comunidades de imigrantes em Portugal. No início, isso ajuda muito na adaptação e a desenvolver as primeiras amizades, construir uma rede de apoios e, claro, matar a saudade do nosso povo (eu sei que parece estranho agora que você ainda está no Brasil, mas quando estamos fora faz toda a diferença… novamente, é cansativo lidar com uma cultura diferente 24h por dia!).

CONTRAS

Xenofobia e racismo

Não posso deixar de falar sobre a xenofobia e, se você for negra ou indígena, o racismo. Claro que temos machismo, racismo e homofobia no Brasil também, mas é só quando saímos do país que descobrimos o que é vivenciar a xenofobia e como aqueles preconceitos já conhecidos (machismo, racismo, homofobia) podem ficar piores aliados a xenofobia. Não posso dizer que é a maior parte da minha experiência em Portugal, mas é pior com pessoas negras e indígenas, certamente, e acontece o tempo todo. Afinal, o passado colonial ainda não está tão passado assim.

 

Custo de vida não acompanha o salário

Portugal não está no seu melhor momento. Aliás, é um dos países com os salários mais baixos na Europa e a eletricidade mais cara. Claro, mesmo assim, nada parecido com o Brasil, onde a conta de luz pode vir o preço de um salário no fim do mês. Mesmo assim, afeta o poder de compra e a tendência é piorar.


Hoje, o salário mínimo em Portugal é 720 euros, sendo que esse valor não paga o aluguel de um apartamento de 2 quartos em Lisboa nem no Porto, talvez nas periferias. Então fala uma boa pesquisa sobre os salários na sua área e as melhores cidades para viver inicialmente! Nas cidades grandes, como Lisboa e Porto, as oportunidades de emprego são mais abundantes que no interior, mas os aluguéis também assustam. Vale a pena considerar o interior, se você não se importa de estar fora do centro!

 

Visitar o Brasil com crianças fica caro

Claro, essa aqui vai depender do seu poder aquisitivo. Mas eu acho particularmente difícil visitar o Brasil sendo mãe, não só por ter de fazer a viagem com uma criança, o que é bem cansativo, mas principalmente porque não é só comprar passagem para mim, né? É pra mim e pra criança. E se tiver mais filhos, mais caro fica, o que torna muito difícil.

Às vezes sinto que tenho que escolher entre visitar meus pais ou adquirir bens que me tragam estabilidade ou entre visitar meus sobrinhos e conhecer aquele país que nunca foi… Imigrante tem sempre planos delimitados pelas condições.

viajar para a Europa com filho pequeno
Em Paris, conhecendo a famosa Notre Dame!

O que deve saber antes de emigrar

Antes de colocar o pé na estrada, algumas dicas podem fazer toda a diferença:

Entenda os tipos de vistos

Há um imaginário na cabeça do brasileiro, alimentado por um movimento massivo de migração “maluca” que aconteceu nos anos 90, de que é possível vir como turista e adquirir um contrato de trabalho e ir ficando. Todo mundo tem uma história de um primo de um amigo do papagaio que fez isso e hoje vive uma vida boa na Europa. Não faça isso.

 

Não estamos mais nos anos 90. As leis mudaram e, em muitos casos, enrijeceram. A Europa passou por governos reacionários em vários lugares que dificultaram as políticas de migração. Há burocracias enormes para empresas que queiram contratar estrangeiros fora do país, elas precisam justificar a escolha para o governo – motivo pelo qual algumas simplesmente desistem (e aquelas que aceitam muitas vezes só querem explorar alguém sem visto em posição vulnerável).

 

Antes de vir, entenda todos os tipos de visto e se eles permitem o trabalho no país de destino. Considere alternativas mais seguras: é possível apelar a um pedido de naturalização buscando algum parente distante que era europeu? Ou talvez visto de reunião familiar? Ou de estudante de doutorado, se for o seu caso? Se não tiver acesso a nenhuma dessas alternativas, tente o novo visto de cidadão CPLP.

Considere diferentes cidades e alternativas

Pesquise, pesquise e pesquise sobre as cidades. Se vem com a ideia de “só emigro se for pra Lisboa”, então venha com o bolso preparado e muito bem preparado. As cidades grandes são ótimas, têm tudo, mas são muito caras de viver. Por isso, se não vem com uma poupança bem alimentada, pesquise várias alternativas: tamanho, custo de vida, preço da aluguel, rede de ensino, rede de saúde. Tudo conta!

Tenha um Plano B e uma reserva de emergência

Ter uma reserva financeira é como ter um porto seguro. Pode demorar até se estabilizar, então é melhor estar preparada. Uma coisa que acontece muito com brasileiros que vêm para Portugal pela primeira vez é a falta de noção de distâncias: nosso país é centenas de vezes maior que Portugal, por isso, para muitos de nós é normal fazer 1h ou mais de transporte dentro da mesma cidade, enquanto que, aqui, 1h é uma viagem de uma cidade para outra. Isto significa que muitos brasileiros gastam uma nota com transporte público nos primeiros meses apenas para fazer entrevistas de emprego, pois não têm noção das distâncias. Isso é só um dos muitos exemplos.


Além disso, se você vem com companheiro e filho (ou filhos), é importante se resguardar caso algo dê errado no relacionamento ou se as crianças não se adaptarem ou se você desistir mesmo ou se algo acontecer no Brasil. A reserva de emergência não é a poupança para gastar aqui: além do dinheiro para viver aqui, ela é uma reserva extra que você pode usar se precisar comprar passagens de última hora. Ou mudar de casa de última hora.

Isso garante paz de espírito, segurança e, acredite, é essencial.

Alternativas profissionais

Se, como eu, você é de uma área que pode ser difícil arranjar emprego (eu estudei Língua Portuguesa na universidade, como poderia dar aulas de Português para portugueses sendo brasileira?), estude alternativas para reconstruir sua carreira profissional ou talvez trabalhar mesmo numa transição de área.

 

Por exemplo, como contei acima, eu trabalhava como servidora pública no Estado quando saí do Brasil, o que tornava a decisão difícil. Porém, ajudou o fato de eu também ter me formado como Doula de Parto e Pós-parto, pois sabia que essa era uma profissão que podia exercer em qualquer lugar do mundo. Se essa área for do seu interesse, recomendo o Curso de Formação de Doulas online da Dra. Julia Nicolosi e Neiva Alencar.

 

Como inicialmente vivi no interior e ainda não tinha carteira de motorista, tive que aprender outras áreas além da doulagem, porque também não tinha contatos na área em Portugal. Acabei me virando para o Marketing Digital e hoje tenho uma carreira bem-sucedida na área, ganho bem num emprego estável e continuo podendo atuar como doula!

Estude sobre a Convenção de Haia

Já ouviu falar da Convenção de Haia? É boa altura estudar sobre este instrumento antes de sair do país, deveria ser mandatório para todas as mães. Ninguém precisa ser expert em direito internacional, mas saber o básico dos seus direitos antes de emigrar pode evitar muitos desgostos e abusos.

 

A Convenção de Haia é uma série de tratados internacionais que foram assinados em Haia, nos Países Baixos, ao longo do tempo e ela versa especificamente sobre questões de direito internacional privado. É a Convenção de Haia que trata de casos como sequestro internacional, tráfico, herança e… divórcio e separação.

 

Resumidamente: a premissa da Convenção de Haia para impedir o sequestro ou tráfico de crianças é que os menores só podem sair do país com a autorização de ambos os pais. Isso se torna um problema quando a mulher é vítima de violência doméstica na mão do agressor ou quer separar de um marido abusador ou apenas quer separar do marido e voltar com seu filho para o país de origem. Se a criança já é naturalizada, o direito do país de residência prevalece. A criança pertence, em última instância, ao Estado, e a mãe não pode sair com o filho sem a autorização do pai.

 

Há muitos casos escabrosos de uso da lei de Haia para perseguir e prender mulheres, por isso, leia e estude sobre a Convenção de Haia! Se preciso e possível, consulte uma advogada especializada. Nem que seja pelo “vai que”.

 

 

mãe imigrante em portugal
Em Lousada, uma vila portuguesa na região norte, foi nossa primeira morada quando emigramos para Portugal.

Mas e aí? Vale a pena emigrar com filho pequeno ou não?

Quero dizer que emigrar com os pequenos é uma decisão cheia de pormenores, medos e esperanças. Com apoio e preparação financeira, pode ser uma jornada incrível, cheia de benefícios para a família. Mas, claro, é importante pesar os prós e contras, especialmente no contexto específico do país de destino. Lembre-se, cada experiência é única, e a escolha final deve sempre ser o que é melhor para você e seu filho.

 

Pensar nas crianças, pensar na família… claro. Mas também não se colocar de lado nem se anular nesse processo: sua ambientação, sua evolução, seu bem-estar, sua estabilidade e autonomia são tão importantes quanto e tão merecedores de atenção.

 

Às vezes, na sede de fugir da violência, desigualdade ou falta de perspectiva no nosso país, acabamos caindo em situações piores. E isso é muito mais difícil quando somos responsáveis por crianças, quando é mais do que a nossa vida em risco. Lembre-se que não é possível cuidar bem sem estar bem cuidada. Só podemos ser as mães que queremos ser se pudermos ser as mulheres que queremos ser também.

 

Dito isto, a decisão é sua. Espero que meu relato tenha ajudado!

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Inspiração

“A mulher viva e politizada afirma ser uma pessoa quer esteja ligada a uma família ou não, quer esteja ligada a um homem ou não, quer seja mãe ou não”.


– Adrienne Rich, Of Woman Born: Motherhood as Experience and Institution

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