Emigrei para Portugal há seis anos com um filho de 2 anos no braço e nenhuma família no país. Eis o que aprendi e o que gostaria de dizer a todas as mulheres.

Há quase seis anos, emigrei de Cuiabá para Portugal com meu filho nos braços e meu companheiro, seu pai. Na altura, decidimos sair do país porque nosso pequeno nasceu com catarata congênita e o acompanhamento custava caro pelo serviço privado. Além disso, sabíamos que ele precisaria de uma ou várias cirurgias em breve. E as cirurgias não eram baratas no privado, nem eram fáceis de conseguir pelo nosso SUS tão sucateado.

Da minha experiência como mãe e imigrante, se eu pudesse dar um conselho pra qualquer mulher seria: jamais se isole da sua família e dos seus amigos para acompanhar um homem. JAMAIS.

Oh sim, eu sei… É seu amor, claro, claro, é o de todas. E você ama como nunca… Claro, claro, todas amam. E nunca mais na vida você vai encontrar ninguém igual, claro claro, como se só existisse o presente… ou como se só existisse ele.

Estar isolada dos seus laços mais fortes (salvo os casos em que a pessoa não possui contato nenhum com a família ou algo do gênero) é mais limitante do que você jamais poderia imaginar. Perder a companhia e a possibilidade de apoio físico dos seus amigos tem um efeito muito mais concreto, urgente e importante do que você supõe. Não é só uma questão emocional, eu e todas as outras mulheres imigrantes aprendemos isso na marra. Não tem teoria do “desapego” nenhuma que dê a volta nisso.

É aqui que se vê claramente como o amor romântico (essa sua paixão aí que nunca sentiu nada igual, que vale o risco, que vale o tiro no escuro e o sacrifício… Isso é o amor romântico: aparentemente te faz ignorar a lógica, a consciência e a razoabilidade atrás de um mito) serve para te fazer cumprir a cartilha da dominação masculina: a família nuclear atomizada – pai, mãe e filho(s) –, presa às responsabilidades domésticas e tendo que se atar a um emprego qualquer para se bancar e bancar as crias.

Engolindo sapos, sacrificando não o que você pensou que sacrificaria (a presença dos amigos, que você justifica com “farei outros de certeza”, e a zona de conforto), mas sim a sua autonomia e o seu poder de decisão sobre si própria. E para quê? Pelo quê?

Por um homem. É isso. Direto e reto. Você pode florear com contos sobre amor e sentimentos e expectativas. Mas em última instância é isso: abrir mão da sua autonomia, suas referências, um contexto em que você tem total controle…. por um homem.

Às vezes mulheres fazem isso porque foram massacradas, manipuladas e pisoteadas por outros homens antes. Sua autoestima, seu tal “amor próprio” (autorresponsabilidade) é algo que está de tal forma despedaçado em mil pequenos cacos por um bando de canalhas e por pressões sociais, que qualquer sinal de atenção, aprovação masculina e cuidado, qualquer migalha de outro homem, preenche a necessidade de se sentir desejada/cuidada/acarinhada.

O mito do amor parece te oferecer cura para feridas que ele mesmo abriu e nas quais precisa de enfiar os dedos e escrachar, abrir e rasgar para continuar existindo.

Às vezes mulheres fazem isso numa tentativa de fuga da realidade imediata: demasiadamente pobre, demasiadamente precária, demasiadamente sem perspectiva. Todo mundo está bem, menos ela. Todos conquistam algo, menos ela. Suas opções são trabalhar até morrer ou só morrer, porque o trabalho não é uma opção nem é a melhor coisa ou a coisa mais entusiasmante que já a aconteceu.

Às vezes é a pobreza que impõe o casamento como solução, às vezes é o marasmo e a falta de perspectiva de uma vida significativa que a faz buscar numa aventura sem responsabilidade com sua própria autonomia e segurança, a solução de problemas que não são possíveis de resolver com amor. São problemas de outra ordem.

Casar ou engravidar como solução para problemas mais profundos: o tédio, a insegurança, a traição, a pobreza, a falta de oportunidades. Claramente, não resolve. Apenas cria problemas adicionais. No caso de gravidezes e filhos, cria problemas para o resto da vida: enquanto a criança viver, os problemas (trabalho, finanças, casa, aluguel, alimentação, tempo, vida social) existirão.

Os “lover boys” são um exemplo de como o mito do amor romântico – essa vontade de preencher a cartilha das expectativas sociais, de ser o centro da atenção de alguém e de viver a propaganda que o conto de fadas te vendeu desde pequena – acaba com a vida das mulheres.

Lover boys são traficantes para o comércio sexual que se passam por jovens muito apaixonados, seduzem e ludibriam as vítimas – geralmente mulheres que estão em outro países, que são jovens e estão vulneráveis (seja economicamente ou emocionalmente).

Tudo é muito rápido: se apaixona, enche do que chamamos de “bombardeio de amor”, rodeia a mulher de atenção e carinho e palavras bonitas. Faz a mulher acreditar que é um amor verdadeiro, elas criam laços muitas vezes profundo com esses caras. Então ele faz planos de uma vida melhor em outro país, eles vão ter uma casa e viver juntos a sua história de amor.

Ele compra as passagens (também é comum fazer a vítima pagar as próprias despesas) e convence a vítima a ir viver com ele. Então pouco a pouco a conversa vai mudando, e nem precisa ocorrer agressão física: a situação tá difícil, assim o relacionamento não vai dar e ela teria de voltar pro seu país…. Então a mulher começa a ser prostituída para “manter” a vida a dois. Na verdade, ele opera como cafetão da mulher e outras chegarão depois. Sempre mantendo a fachada do amor, do relacionamento a dois e profundo..

Mas não precisava citar esse extremo para mostrar as armadilhas do amor romântico. Essa é só uma das muitas maneiras pelas quais mulheres se ferram.

Podia falar aqui das mães que ficam sozinhas com os filhos quando o “amor” abandona o barco.

Das mulheres, mães ou não, que ficam submetidas à violência física e sexual porque não têm onde morar ou como voltar ou pedir ajuda, uma vez que cederam ao isolamento pra viver “o grande amor”.

Podia falar das mulheres que interrompem suas carreiras, deixam trabalho e estudos e amigos, e passam a depender do cara e se enfiam numa depressão pelo sentimento de isolamento e falhanço com que têm de lidar diariamente.

Podia falar das adolescentes em relacionamentos abusivos e manipuladores com seu “amor” mais velho, sendo traídas sempre e de novo e vivendo em psicose.

Podia falar das mulheres que acabam por adoecer mentalmente, desenvolvem bipolaridade, borderline, depressão ou síndromes de pânico e ficam pra sempre marcadas como histéricas pela insegurança e manipulação gerada pelo “presente de Deus”.

É um ciclo vicioso. Viciado. Um continuum de violência contra você mesma, que desencadeia sempre uma outra e outra e outra. Uma hidra de lerna: cada cabeça que você corta faz surgir mais duas.

Esse texto é sobre a vida de inúmeras mulheres em cada canto do mundo. É um texto sobre isolamento, sobre patriarcado, sobre opressão e sobre aprendizado.

Não ignore o que as mulheres aprenderam com a sua vivência sob condições de violência e dominação masculina – essa mulher pode ser sua mãe, sua vizinha, sua amiga, uma desconhecida sobre a qual você ouviu.

Não ignore os alertas.
Não ignore as suas dúvidas.
Não abafe as suas suspeitas.

Isso é responsabilidade com a sua vida, mais nada.

Não ceda. Não ceda ao mito que só serve pra te trancar entre quatro paredes e te fazer cumprir um papel social, este que te convenceram ser o objetivo da sua vida e a medida da felicidade, mas que exige que você remodele a sua vida para cumpri-lo. Exige que você perca liberdade, perca autonomia, que você assine um termo de servidão ao trabalho porque tem outra vida pra manter.

Não ceda ao conto da carochinha que diz que o objetivo da sua vida é estar com um homem, que ser feliz é encontrar um homem, que isso é uma meta e um fim em si para seus planos de vida. Não ceda ao conto da carochinha patriarcal.

O relacionamento como meta de vida.
O casamento como um conto de fadas.
A maternidade como solução pra preencher uma necessidade de companhia, de atenção ou de cumprir expectativas sociais. Reproduzir a família do comercial de margarina.

É uma mentira.
É uma ilusão.

Não ceda suas expectativas, suas aspirações, sua vida e sua liberdade por um homem.

Não estou dizendo pra você não se relacionar com ninguém. Nem que todo homem vai acabar com a sua vida. Estou dizendo pra SEMPRE priorizar a sua autonomia.

Se um relacionamento exige a privação da sua liberdade ou sua autonomia financeira, social, pessoal qualquer que seja, mesmo que momentaneamente, não ceda.

Você primeiro.

Respeite a sua vida.

Você é uma pessoa inteira, não a metade de um homem qualquer.

Sobre a autora

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    Vila Materna é um portal de informações baseada em evidências científicas sobre gestação, maternidade e educação e com firme compromisso com a perspectiva feminista e os direitos das mulheres e crianças.

    Inspiração

    “A mulher viva e politizada afirma ser uma pessoa quer esteja ligada a uma família ou não, quer esteja ligada a um homem ou não, quer seja mãe ou não”.


    – Adrienne Rich, Of Woman Born: Motherhood as Experience and Institution

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