Esse é o relato do nascimento do Artur, em Cuiabá. Artur chegou às 20h de uma terça-feira, num parto natural hospitalar humanizado, respeitoso e a jato!

Esse é o relato do parto da Eva, do pai Fernando e da chegada do pequeno Artur.

Eva me procurou no início da gestação. Não foi planejada, completamente inesperada, os dois eram muito jovens e ainda estavam a meio do curso na faculdade. Não entendiam nada de parto e de gravidez. Não sabiam como era, o que fazer, quando ir para o hospital, estavam perdidos. E muito ansiosos.

Ao longo da gestação, visitei Eva e Fernando muitas vezes. Em nossos encontros, falávamos das fases que estavam passando, tirávamos as dúvidas mais variadas que surgiam – desde “pode fazer sexo grávida?” até “é verdade que o bebê pode morrer sufocado se o cordão enrolar no pescoço?”.

Convidei ambos para as rodas de preparo para o parto, organizada pelas equipes de parto domiciliar, e juntos também fizemos a “despedida da barriga”, onde pintamos o Artur na barriga da Eva e fizemos os nossos votos de uma boa hora para sua chegada.

Estava tudo correndo muito bem, como previsto, e muitos aprendizados pelo caminho. Já no último trimestrem, fui preparando meu “kit doula” semana após semana: o rebozo, a bolsa de gel para compressa, o óleo de massagem, as presilhas e xuxinhas, o par de meias, todas as coisas que poderiam ajudar para deixá-la mais confortável, relaxada e à vontade no dia do parto.

Eva foi uma das minhas primeiras doulandas. Na minha cabeça, o parto seria assim: começaria com calma. Talvez uma ligação ou mensagem deles avisando que começavam a sentir contrações, que ainda estariam espaçadas, então eu iria pra casa deles e os ajudaria até o fim do trabalho de parto, conversando e exercitando; por fim, iríamos para o hospital perto do expulsivo.

Aprendi ali a primeira lição de doula: você não pode controlar os detalhes. Cada parto é um parto. E todo parto é imprevisível.

Artur veio dizer pra mim, para a Eva e para o Fernando que a vida não é linear. E, depois de semanas preparando, quando o dia finalmente chegou, nada foi como o planejado. Eva foi uma daquelas mulheres que nem sentiu as contrações iniciais. Quando se deu conta, já estava em trabalho de parto ativo. A dilatação avançava muito rapidamente e, por isso, ela resolveu ficar no hospital quando a bolsa rompeu, porque as contrações estavam próximas.

Fernando me ligou desesperado: “venha, está evoluindo rápido! Acho que já vai nascer”.

Passei em casa para buscar meu kit de doula. Acabei ficando trancada para fora, pois meu companheiro tinha acabado de sair de casa para… me buscar! Não podia esperar mais! Não pude me trocar ou pegar minhas coisas, era um daqueles trabalhos de parto a jato! Avançou cerca de 4cm em apenas 2h.

Peguei um chinelo qualquer na casa da minha mãe e fui do jeito que estava: calça jeans, sapatilha, sem nada na bolsa além da carteira, carregador e caneta.

Ainda por cima, o hospital era enorme. Entrei no prédio errado e tiver de correr para o outro, mais à frente, onde era a maternidade. Havia fila na recepção pra receber um adesivo e poder entrar.

Acompanhante ou visitante?”, me perguntou o recepcionista.

Doula”, respondi.

É o quê?”, ele não entendeu e insistiu: “acompanhante ou visitante?”.

Acompanhante”, tentei a sorte.

Não era o ideal, cada pessoa só podia ter 2 acompanhantes na sala de parto e eu sabia que aquilo podia ser um impasse. Mas precisava correr, Eva contava comigo.

Tive que esperar, ela já tinha duas pessoas na sala e não podia entrar mais uma. A irmã da Eva saiu do quarto e me deu o adesivo dela. Subi correndo. “Corre que o negócio lá tá tenso”, ela me disse.

Quando chegava na sala, encontrei com a obstetriz, que me pediu um favor. Chamei alguém. Entrei na sala, a enfermeira me olhou e pediu pra ir chamar alguém, parecia querer me tirar dali. Chamei e voltei correndo.

Eva tinha contratado uma médica particular e tinha uma suíte de parto. Quando finalmente consegui encontrá-la, ela estava no banheiro, debaixo do chuveiro, sentada na banqueta de parto com Fernando sentado atrás dela, abraçando e dando apoio.

Dei um beijo fraternal na sua testa, agachei e segurei sua mão. Não demorou nada de nada pra entrar no expulsivo. Dias depois do parto, numa das visitas de acompanhamento, ela me disse “Eu fiquei tão aliviada quando te vi. Acho que estava só te esperando para entrar no expulsivo”.

Foto clicada pela fotógrafa de parto Elis Freitas.

Estive com ela por todas as outras contrações, Fernando sendo um companheiro exemplar e apoiando com palavras de força, abraços e canções. Fiquei emocionada ao vê-los tão conectados no trabalho de parto, tão unidos. Segurei o choro quando ouvi o “eu te amo” declarado de um pra outro, com as vozes alteradas de choro, de emoção e de esforço.

Uma hora depois que cheguei, exatamente às 20h, nasceu Artur.

Ainda só tinha saído a cabeça, com toda aquela cabeleira exuberante para um recém-nascido, formando um penteado moicano por causa do caminho para fora do canal vaginal. Nem saíra todo e já abrira os olhos, como para checar se queria mesmo vir cá pra fora.

Sem ocitocina, sem soro, sem analgesia. Sem pedir cesárea, sem dizer que não consegue, sem duvidar um segundo da capacidade e da força que tinha. Mulher entregue, forte e decidida a parir e receber seu filho com as próprias mãos. Foi diretinho pro colo da mãe.

Clampearam o cordão umbilical, levaram para pesar e medir. O pai foi junto, fiquei com a mãe.

Quatro quilos de deliciosidade recém-nascida, 53cm. Bebês grandes também nascem de parto natural!

Tentaram levar o bebê para um bercinho com uma luz fria e ofuscante “para aquecer”. Não deixamos. Ajudamos Eva a mudar do banco de parto para a cama, ajudamos a deixá-la confortável e levamos Artur para o peito de sua mãe, chutando aquele quase-poste de luz arteficial frio e impessoal para longe com chutes discretos.

Fernando chorando, família louca para entrar no quarto. Eu, ao lado de Eva, dava-lhe biscoitos, água e outra bebida para recuperar um pouco das energias e amenizar a fome. Artur veio para mamar: mamou na primeira hora de vida com a pega correta! Booooa!

Depois, os parentes entraram na sala, sogros e sogras, irmã, primos… A sogra da Eva me abraçou, chorando e sorrindo, e disse “muito obrigada por todo o apoio que deu a ela, você foi muito importante”. Quase chorei de novo.

Foi um lindo parto hospitalar natural, sem ocitocina, sem analgesia, sem soro, bebê de 4g e 52cm sem receber colírio, amamentado na primeira hora, contato pele-a-pele ao nascer, não tomou banho no primeiro dia para manter o vernix. APGAR 10/10. Tudo lindo, hora de ir embora, dar espaço para a nova família e voltar para visitá-los outro dia.

Primeira lição de doula: posso prever, mas não posso controlar. Posso ter uma bolsa de doula cheia de coisas, mas aquilo que realmente preciso carregar comigo é um coração cheio de coragem e empatia e duas mãos prestativas! Isso é o que importa!


Obs: os nomes verdadeiros foram trocados para manter a privacidade das pessoas citadas no relato.

Sobre a autora

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    Inspiração

    “A mulher viva e politizada afirma ser uma pessoa quer esteja ligada a uma família ou não, quer esteja ligada a um homem ou não, quer seja mãe ou não”.


    – Adrienne Rich, Of Woman Born: Motherhood as Experience and Institution

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