A pornografia se tornou massiva e facilmente acessível. Sobretudo, mais violenta que nunca. Saiba como falar sobre pornografia com seu filho e ajudá-lo a ultrapassar essa situação.


Quando as crianças assistem pornografia ou se tornam espectadores regulares, é normal que os pais experimentem uma gama complicada de emoções. Se a sua primeira reação foi sentir raiva, essa raiva deve ser direcionada para a indústria pornográfica – não para as crianças.

Nós compreendemos como pode ser assustador educar crianças numa cultura de mídia hiperssexualizada que normaliza e populariza a pornografia violenta. Por isso, desenvolvemos um modelo para ajudar os pais a responder de maneira adequada e atenciosa se e quando descobrirem que seus filhos assistiram pornografia.

Essa abordagem tem duas componentes. A primeira é a resposta focada na criança. Isso implica ajudar sua criança a refletir e processar as emoções e comportamentos com gentileza e compaixão. A segunda componente é a resposta focada nos pais, apoiando os pais para estarem atentos aos seus pensamentos e sentimentos sobre sexo e pornografia.

1. Fique calmo e nada de pânico

Considere que quanto mais calmo você estiver, mais calmo e mais receptivo seu filho(a) estará para receber o seu apoio. Se pegou seu filho assistindo por acaso, diga a ele ou ela que ele/a não fez nada de mau, mas dê-se algum tempo antes de iniciar essa conversa.

Tenha em mente que seu filho ou filha tem um entendimento diferente sobre sexo, sexualidade e conceitos sexuais do que você tem enquanto adulto. Se as crianças tiverem a percepção de que sua reação foi exagerada invés de calma e objetiva, isso pode fazer com que pensem que eles são uma pessoa má e adicionar confusão ao impacto negativo das imagens que eles viram.

Uma boa estratégia é dar-lhes algum tempo para se recomporem, pois podem se sentir envergonhados ou até assustados. Você pode, inclusive, envolvê-los nalguma distração divertida antes de iniciar a conversa, para quebrar o gelo e baixar a guarda. Peça-lhes que lhe digam quando, dentro dos próximos dois dias, eles se sentirem prontos para falar sobre isso.

2. Mantenha o controle

Estabelece um diálogo que não seja baseado em fazer seu filho se sentir envergonhado ou culpado. Invés disso, seja curioso: esclareça detalhes e descubra se mais alguém estava envolvido.

Faça perguntas como: foi um ato isolado por curiosidade? Foi um acidente ou foi proposital? Que dispositivo seu filho estava usando? Foi em casa, na escola ou na casa de um amigo? Alguém mostrou as imagens/vídeos durante um bate-papo on-line? Em caso afirmativo, essa pessoa era conhecida ou um contato recém-adicionado? Quando isso aconteceu? Foi algo “pontual” ou eles já estavam assistindo pornografia há algum tempo?

Para a segurança e privacidade de todos, lembre-se de manter o número de pessoas que sabem dessa situação num mínimo absoluto. Essa etapa é crucial para entender que nível de intervenção e apoio pode ser necessário.

Em vez de buscar todas respostas no seu filho, dê um passo atrás, faça algum trabalho de detetive e leve em consideração como você poderia verificar todas as informações que conseguiu. Você não precisa fazer todas essas perguntas de uma só vez. Pode levar tempo para que seu filho se abra com você, portanto seja paciente.

3. Ajude-os a compreender e validar o que sentem

Tente perceber como isso impactou seu filho. Invés de entrar na espiral de vergonha e culpa, que pode fechar a porta do diálogo, lembre-os de que aquilo que eles sentem é normal e é válido, independente do que seja.

Se eles são crianças mais novas, você pode perguntar se isso os fez sentir “enjoados na barriga” ou “com nojo”. Mostre que você entendeu. Tenha empatia e assegure-lhes que você poderia ter sentido o mesmo se estivesse naquela situação.

As crianças podem sentir excitação e, às vezes, orgasmo, dependendo de quanto tempo estiveram envolvidas com o conteúdo. Ajude-os a entender que só porque algo traz uma sensação boa, isso não significa que seja bom para eles. Valide suas emoções e ajude-os a nomear e compreender a reação que tiveram.

Lembre-se de gerir seu próprio humor e continue calmo, pois seu filho irá refletir as suas emoções.

4. Seja o pai ou a mãe com quem seu filho pode contar

Seja o tipo de pai ou mãe em cuja presença seu filho possa se sentir apoiado e seguro. Isto criará um ambiente confortável para que seu filho possa fazer perguntas.

Pode levar algum tempo para que a criança pense sobre as dúvidas que tem, portanto será uma conversa para ir fazendo ao longo do tempo. Se sexo e pornografia são coisas que eles não estão acostumados a discutir com você, eles podem estar perguntando a outras pessoas ou podem estar escondendo as emoções de você. Mostre que junto de você eles têm um lugar calmo, seguro e acolhedor para que voltem e fiquem em casa. (Isso é muito importante para qualquer tipo de problema, não só pornografia!)

Pense em como você pode guiar seu filho ou filha através dessa situação. Leia livros e converse com outros pais que possam ter tido experiências semelhantes. Ensine seus filhos a pensarem criticamente sobre esses assuntos, envolvendo-os em conversas ponderadas sobre imagens na televisão, filmes e publicidades em espaço público. Pergunte como essas imagens os fazem sentir e fale sobre como essas imagens reduzem as pessoas a objetos.

5. Encontre alternativas para substituir a pornografia

A indústria pornográfica criou esta situação, mas agora você pode ajudar a ultrapassar isso com ações positivas e escuta empática.

A abordagem de “substituição” será diferente dependendo da idade e do estágio de desenvolvimento de seu filho. Um elemento importante é ajudá-los a considerar como podem ser parte da solução em vez de serem manipulados pela indústria pornográfica. Os jovens odeiam sentir que sofreram lavagem cerebral e podem ser agentes incríveis de mudança. Aproveite esse “desafio” como uma forma de motivar mudanças de atitudes e comportamentos.

Discuta a alternativa com eles. Se eles e seus pares acreditassem em tudo o que a indústria pornográfica quer que eles acreditem, quais seriam as consequências pessoais, relacionais, sociais e culturais?

Fale sobre como as coisas poderiam ser se as pessoas se mobilizassem para lutar contra e resistir aos danos de uma cultura pornográfica. Fale sobre como vocês resolverão os problemas juntos se eles perderem de vista este objetivo. O castigo não é a resposta, pois isso cria vergonha e fecha as portas para outras discussões.

6. Seja estratégico e trabalhe num plano de longo prazo

Mantenha a cabeça fria e trabalhe pensando a longo prazo em vez de entrar em pânico ou agir no calor do momento. Procure ajuda profissional, se sentir que precisa de mais apoio.

Incentive discussões saudáveis e abertas e ajude seu filho a explorar como se sente quando tem coragem e confiança para “fazer a coisa certa”. Se seu filho sabe o que é e o que não é um comportamento aceitável conforme um conjunto de limites pré-determinados, você terá uma base sólida sobre a qual construir expectativas de comportamento futuro.

Filtros e aplicativos de monitoramento podem ajudar a reduzir o acesso à pornografia enquanto seu jovem está aprendendo a desenvolver a autodisciplina.

Se você acha que seu filho está habituado ou viciado em pornografia, isto exigirá uma estratégia diferente e, muitas vezes, mais apoio e responsabilidade. Não seja tímido em pedir ajuda! A intervenção profissional pode prepará-lo com uma estratégia direcionada e fornecer os apoios e reforços tão necessários.

7. Acompanhe, monitore e preste atenção aos sinais

Cheque regularmente como está o seu filho. Ajude-o a desenvolver as habilidades necessárias para tomar decisões saudáveis e deixe claro que você será pai/mãe e parceiro/a deles.

Mostrar que você é um(a) parceiro(a) nesta jornada dará uma estrutura que lhe permitirá olhar por eles e estar disponível para que eles conversem consigo. Monitore a atividade deles on-line e fique em sintonia com seus comportamentos. Dependendo do nível de interação de seu filho com a pornografia, a vida pode rapidamente retomar seu equilíbrio, especialmente se a exposição foi um incidente único e isolado.

Se o uso de pornografia for recorrente, então retrocessos são expectáveis. É importante que você “esteja em cima” de seus filhos e vá acompanhando como eles estão se sentindo, especialmente se houver mudanças de comportamento (por exemplo, se começarem a mentir, ficarem mais reservados, começarem a fazer xixi na cama ou se mostrarem mais ansiosos).

Confie em seus instintos parentais se você suspeitar que seu filho não está bem. Revise sua estratégia e procure a assistência de profissionais.


CULTURE REFRAMED
Esse conteúdo é uma tradução livre do Programa para Pais desenvolvido pela ONG Culture Reframed, da pesquisadora e ativista antipornografia Dra. Gail Dines. A Vila Materna não tem propriedade intelectual nem detém os copyrights sobre esse conteúdo.

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    Inspiração

    “A mulher viva e politizada afirma ser uma pessoa quer esteja ligada a uma família ou não, quer esteja ligada a um homem ou não, quer seja mãe ou não”.


    – Adrienne Rich, Of Woman Born: Motherhood as Experience and Institution

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