Na era das aparências em redes sociais, nem os bebês conseguem escapar da exposição. O problema é que, além dos perigos, eles não conseguem controlar e decidir como são expostos.

Asahd Khaled é filho do rapper e DJ palestino DJ Khaled. Valentina Santos, brasileira, na outra ponta do mundo, é filha do humorista Ceará e da modelo Mirella Santos. O que ambos têm em comum? Ambas as crianças tinham a vida acompanhada por mais de um milhão de completos desconhecidos no Instagram antes mesmo de atingir os 3 anos de idade. Mas quem são os verdadeiros influenciadores aqui?

As redes sociais assumiram um protagonismo inquestionável na vida moderna: adicionar ou remover alguém das redes sociais viraram verdadeiras formas de “incluir” ou “excluir” pessoas da “vida real”. Uma forma de demonstrar que “cortamos laços” ou de criar laços, como os Tinders da vida. Cancelamentos virtuais ganham proporções físicas de impactos astronômicos e até a política passou a ser intermediada pelos influenciadores digitais.

Talvez pela onipresença das redes sociais como mediadoras da vida e das relações reais ou pela própria falta de conhecimento generalizado sobre o funcionamento das redes (e do enorme mercado de compra e venda de dados pessoais digitais no mundo), o fato é que muitas mães parecem utilizar as redes sem considerar os riscos da exposição.

Redes Sociais não são um “álbum de fotografia” diferente

Mídia, Consumo e a Adultização de Crianças: Uma Reflexão Macrossocial  Tiziana Brenner B. WEBER2 Eliane Cristine FRANCISCO-M
Adultização de meninas nas redes sociais são um reflexo perigoso de padrões pornificados e deixa meninas vulneráveis às redes de pedofilia.

À primeira vista, a impressão é que as mães (e não só) tendem a ver e pensar as redes, como o Facebook ou Instagram, como se fossem a versão moderna e digital do antigo álbum de fotos que todos tínhamos em casa nos anos 90. Afinal, quem nunca passou pela situação embaraçosa de levar uma amiga ou namorado(a) em casa e a mãe tirar da estante aquele álbum empoeirado cheio de fotos de 20 anos atrás com nossas carinhas pintadas?

Contudo, independentemente de qual é a motivação (comemorar o aniversário, anunciar a chegada do bebê ou simplesmente demonstrar afeto), publicar a foto de uma criança nas redes sociais é MUITO mais complexo do que revelar uma foto e colocar num quadro na parede ou no álbum poeirento de casa.

Fotografias são objetos físicos que só podem ser vistos pessoalmente. É impossível que uma empresa privada, como o Facebook e o Instagram, utilize a fotografia emoldurada na sua parede para obter informações sobre a sua fisionomia, sobre quem é a mãe ou o pai ou a tia daquela criança de modo a enviar publicidade direcionada e é, certamente, mais difícil alguém divulgar ou compartilhar a foto com mais pessoas sem passar por um processo antes.

Além disso, se acontecer de, mais tarde, a criança se sentir envergonhada ou chateada com a imagem por qualquer razão, a foto pode ser simplesmente descartada e esquecida (ou podemos esconder para sempre até, num futuro adulto e distante, remexermos nas nossas coisas velhas, olharmos e rir de nós mesmas). Nas redes sociais, não é exatamente o mesmo.

Os muitos riscos de expor crianças na Internet

Um estudo realizado pela companhia Local BabySitter reportou que mães e pais de crianças de até 6 anos publicam até 2,1 informações por semana sobre a criança na internet. A empresa AVG, focada em segurança digital, publicou outro estudo feito com dados de utilizadores de 10 países em diferentes continentes que mostram que 3 em cada 4 crianças de até 2 anos têm fotos na Internet. Outra pesquisa liderada pela revista norte-americana ParentZone mostrou que os pais “medianos” publicam perto de 1500 fotos dos filhos na Internet antes de completarem 5 anos.

É importante lembrar, em primeiro lugar, que o conceito de privacidade nas redes sociais praticamente inexiste. É mais uma formalidade contratual para evitar que empresas sejam punidas e multadas do que uma real preocupação com a segurança das informações pessoais dos utilizadores.

Uma foto na parede nunca terá o mesmo “alcance” que uma foto publicada nas redes sociais para qualquer pessoa ver – não importa se é a tia, o primo em 4º grau ou o completo desconhecido que você não sabe como foi parar no seu perfil. A partir do momento em que se publica e que outras pessoas têm acesso, é literalmente impossível assegurar que a foto não seja utilizada para seja lá que outros fins, por qualquer pessoa em qualquer lugar do mundo.

Um rápido passeio pela bolha materna no Instagram rapidamente nos revelará perfis com centenas de milhares de seguidores com publicações inteiramente dedicadas a publicar fotos de bebês. Não raramente, muitas das fotos (inclusive de bebês recém-nascidos, especialmente persistente quando as bebês são meninas) mostram um bebê vestido como “gente grande”. No caso das meninas, chegando a emular roupas e poses extremamente sexualizadas.

Bebês e crianças são tratados como objetos inanimados: bonecas e manequins vestidos e enfeitados “ao gosto do freguês”. E quem resiste à fofurice das fotos? As curtidas, partilhas e comentários chovem torrencialmente, alimentando um algoritmo baseado no engajamento da audiência para distribuir publicidade e gerar lucro.

E qual o problema? Um exemplo muito prático pode ser visto no caso reportado no ano passado, 2020, por uma reportagem conduzida pelo jornal Fantástico. A reportagem alertou sobre uma Rede internacional de pedofilia interceptada pela polícia, na qual os pedófilos utilizavam fotos e vídeos das crianças que tinham sido publicados nas redes sociais pelos próprio pais.

Outros casos que, infelizmente, não são raros são sequestro de crianças em que a informação foi facilitada pelas redes sociais. Em 2014, o caso de um menino de 9 anos sequestrado e mantido em cativeiro durante 5 dias na cidade de Ilhota, em Santa Catarina, alertou o Brasil. O sequestrador, um homem de 30 anos, afirmou ter descoberto a escola que o menino frequentava e o emprego do pai através de publicações no Facebook, informações que utilizou para planejar o sequestro.

Como se a exposição às redes de pedofilia e o risco de sequestro não fossem suficiente, não podemos esquecer ainda das situações de cyberbullying e bullying e suas consequências profundas, como o caso de Débora, que com apenas 15 anos viu sua foto viralizar como meme na internet, o que a levou a uma situação depressiva e suicida.

Pais têm direito sobre o direito de imagem da criança?

Em última instância, mas não menos importante, uma pergunta precisa ser feita e refletida a partir da perspectiva dos direitos da criança: crianças têm direito sobre a sua própria imagem? Ou esse direito “pertence” aos pais?

Pode parecer uma questão menor, mas é mais complexa do que isso. Como os pais, especialmente mães (que geralmente assumem a maior parte do trabalho e responsabilidade de cuidados sobre as crianças), são os guardiões responsáveis pelos menores de idade, respondendo pelas decisões necessárias, muitas vezes é difícil distinguir o que é “direito sobre” de “propriedade sobre”. Porque isso abre o debate se crianças são pessoas com direitos por si mesmas ou se “passam” a ter direitos aos 18 anos, quando podem responder por suas decisões.

E o direito sobre a própria imagem também oscila nesse lusco-fusco confuso de quem decide o quê para e sobre quem e quem é “dono” do quê e de quem.

O ponto que estou tentando defender aqui é: crianças são pessoas com direito em si e por si mesmas, inclusive o direito à própria imagem. Não cabe aos pais decidir como utilizar a imagem da criança nas redes sociais, sendo uma decisão tão complexa que pode afetar, até mesmo para sempre, o futuro da criança, e sendo algo que ela própria não consegue refletir ou mensurar a dimensão e as consequências.

Não, não é como decidir em que escola estudar ou se faz ou não a cirurgia. Não, não é como decidir se pode comer chocolate antes ou depois dos 3 anos de idade. Nem é tão simples quanto perguntar à criança se ela quer publicar a própria foto.

Guardar as crianças dos potenciais riscos e perigos da exposição da sua imagem nas redes sociais é a decisão que devíamos e poderíamos fazer, e não “com quantos meses já dá para criar um Instagram”.

Queremos mesmo que tantos estranhos tenham acesso ao rosto, à vida e informações de nossos filhos e filhas? Queremos correr esse risco? Queremos que cresçam com essa relação com as redes sociais, relacionando seu sucesso, autoestima e socialização com a exposição na Internet?

Pensemos duas vezes, no mínimo.

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    Inspiração

    “A mulher viva e politizada afirma ser uma pessoa quer esteja ligada a uma família ou não, quer esteja ligada a um homem ou não, quer seja mãe ou não”.


    – Adrienne Rich, Of Woman Born: Motherhood as Experience and Institution

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