Vem aí uma geração de crianças órfãs. É mais urgente que nunca reconhecermos a dor e a diversidade das famílias brasileiras.

O dia dos pais e o dia das mães são datas festivas consolidadas nas escolas. Todos os anos, entram no calendário escolar da maioria das instituições. Educadoras se preparam para fazer lembrancinhas e atividades, enquanto pedem às crianças para descrever a figura paterna ou materna, o que gostam de fazer juntos, declarar o seu amor e dizer quanto são importantes em suas vidas.

E, assim, todo ano é preciso lembrar que o dia dos pais não é uma data comemorativa para centenas de milhares de crianças no Brasil, mas sim uma data muito dolorida. Seja pelo abandono paterno, seja pelo luto ou outra razão qualquer, o fato é que já passou da hora de repensarmos como lidar com essas datas nas escolas e outros ambientes frequentados por crianças.

No Brasil, são mais de meio milhão de crianças sem o nome do pai na certidão. Em 2021, o número cresceu pelo quarto ano seguido. Além disso, a pandemia de coronavírus trouxe um novo desafio para as nossas vidas: a cada cinco minutos, uma criança fica órfã por causa do Covid-19. E o Brasil é o segundo país do mundo mais impactado por essa realidade. Na verdade, o nosso país está no topo do ranking de morte de grávidas por covid no mundo todo. Ou seja, virá aí uma geração inteira de crianças sem pais nem mães.

Nas redes, como nas instituições, inundam sugestões de como “contornar” o problema de um dia dos pais sem pai ou de um dia das mães sem mãe: explicar à criança, falar de diversidade, escolher a figura que melhor represente ou mais se aproxime daquela que se celebra. Contudo, talvez devêssemos nos questionar: vale a pena obrigar a criança a fazer essa ginástica para não confrontar o fato de que o pai ou a mãe, por qualquer motivo, não está lá?

Trocar o Dia do Pai e o Dia da Mãe pelo Dia da Família

Algumas escolas já começaram a adotar essa ideia há algum tempo. Invés de termos um dia da mãe ou um dia do pai, temos um “Dia da Família”, no qual a criança pode escolher homenagear a pessoa mais importante para si, seja essa pessoa a mãe, o avô, a tia ou irmãos. Se pensarmos bem, só existem benefícios em fazer essa substituição:

#1 – Sem ausências, sem exclusão e sem hierarquias

Ter um “Dia da Família” não obriga a criança a confrontar uma ausência (seja paterna ou materna) que a faz sentir diferente e excluída do resto dos amigos e amigas na escola. Ser obrigada a lidar com a data todos os anos, ter que lidar com o sentimento e o impacto que isso pode ter no seu psicológico e na sua construção de identidade não é algo que devêssemos impingir às crianças. O dia da família não cria, assim, hierarquias entre as crianças, nem dá espaço para a sensação de exclusão.

#2 – Reconhece a diversidade das famílias brasileiras

Como os números mostram, imaginar a “família tradicional brasileira” como uma mãe, um pai e filhos é uma ilusão. A verdadeira “família tradicional” no Brasil, se formos honestas, é uma mãe solo criando seu filho, seja por abandono paterno ou porque o pai foi vítima da violência (policial ou não). Trocar o “Dia da Mãe” e o “Dia do Pai” pelo dia da família não só reconhece as famílias monoparentais como famílias completas por si mesmas, como também reconhece as famílias compostas de duas mães, dois pais ou famílias em que as crianças são criadas por outras figuras, como os tios ou avós.

#3 – Valoriza a comunidade invés da figura individual

O “Dia da Família” não é sobre uma figura específica e seu papel específico, é sobre celebrar os laços e a comunidade que cria, educa e serve de apoio e afeto para a criança. Celebrar essa comunidade, invés de depositar tantas expectativas e cobranças em apenas uma pessoa, seja a mãe ou o pai, fomenta uma relação e percepção mais saudável.

Precisamos reconhecer que as famílias mudaram. E, se queremos realmente fazer o melhor pelas crianças, nós precisamos acompanhar essa mudança.

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    Inspiração

    “A mulher viva e politizada afirma ser uma pessoa quer esteja ligada a uma família ou não, quer esteja ligada a um homem ou não, quer seja mãe ou não”.


    – Adrienne Rich, Of Woman Born: Motherhood as Experience and Institution

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