Aposto que você não imaginava isso, mas as dúvidas só aumentam depois da cirurgia de catarata congênita infantil. Essa é a nossa experiência no pós-operatório.

Quando me procuram para saber sobre a catarata congênita, as duas principais dúvidas dos pais são: a cirurgia e a recuperação. Falei sobre a catarata congênita infantil na outra publicação, que podem ler aqui no site, mas gostaria de reforçar que cada criança reage de um jeito, a seu modo e tempo, além de que cada uma pode receber um tratamento diferente de acordo com o seu quadro. Por isso, só posso contar a nossa experiência.

Depois da cirurgia de remoção das cataratas, o oftalmologista do meu pequeno receitou três colírios que seriam ministrados em horas intercaladas (Zypred, Predsin e Predfort). Um dos colírios servia para cicatrizar o corte para remover a catarata; o outro, para prevenir alergias; o terceiro era um antibiótico.

Dois dos colírios eram dados a cada 6h, então intercalamos e dávamos um colírio a cada 3h, o terceiro era a cada 12h – então escolhíamos o horário mais tranquilo, quando tivesse acordado e já esquecido dos outros colírios (afinal, não é fácil dar colírios para uma criança, de modo que preferimos dar algum tempo para ele esquecer rs). Tentávamos pensar um jeito de intervir o mínimo possível na rotina de sono dele, mas era complicado conciliar isso com colírios a cada 3h.

É uma fase difícil: acordar de madrugada para dar colírio, acalmar um bebê incomodado e voltar a fazer o bebê dormir… Andar nisso o dia todo! Exige muita atenção e dedicação e, claro, apoio. Tive a sorte de ainda estar em licença maternidade quando isso aconteceu, se não for o seu caso: tire licença médica para acompanhar.

É importantíssimo seguir à risca esse tratamento, a fase é decisória. Não importa se atrasou uma hora na medicação: reorganize! Mas não deixe sem colírio nem uma vez. Tente seguir o mais próximo possível, pois, como já falei, é decisória para a recuperação do bebê.

Cuidados no pós-operatório da catarata infantil

  • Evite deixar que coce os olhos, porque pode causar uma inflamação;
  • Evite sair com o bebê, especialmente em espaços muito iluminados ou empoeirados;
  • Não deixe o bebê no escuro (ele precisa treinar os olhos), mas evite iluminação em excesso;

Passado esse período, os colírios diminuem para apenas dois, depois apenas um… Até que, um belo dia, já não serão necessários. Não lembro, ao certo, quando deixamos de usar os colírios, mas foram poucos meses de uso. Creio que não chegou perto de três meses, no total.

Os bebês começam a enxergar logo após a cirurgia?

A resposta é sim e não. Sim, porque agora a luz não é “repelida” nos olhos, como antes, mas é absorvida e é assim que se forma a imagem para que possamos enxergar. E não porque todo aquele tempo que o bebê esteve sem enxergar (se for o caso de catarata total) terá que ser recuperado dali pra frente.

Vamos começar do começo.

Como se desenvolve a visão dos bebês?

Quando nascem, os bebês são funcionalmente “cegos”. Enxergam principalmente vultos. Com duas semanas de vida, já mais habituados à luz aqui de fora, começam a ver contrastes fortes (branco e preto, por exemplo), depois de um mês, uma ou outra cor mais chamativa.

Com três ou quatro meses, o bebê já vê alguma gradação de cores, consegue focar em primeiro plano (como quando fixamos numa coisa só e tudo parece secundário atrás) e conseguem delimitar as formas.

O meu filho, por exemplo, não enxergou nada durante quatro meses, que foi quando ele finalmente fez a cirurgia. Então, depois de removida a catarata, foi preciso desenvolver tudo isso do zero, passar por todas essas fases de novo, mas numa velocidade maior, porque é como se todo esse desenvolvimento – normal nos demais bebês – tivesse ficado guardado, acumulando e esperando para aflorar. E, quando a catarata é removida, ele vem à galope tentando desenvolver o máximo possível.

É então que passamos para a outra necessidade dos nossos queridos bebês depois da cirurgia: a estimulação.

Usando óculos após a cirurgia

A primeira vez de óculos, vendo à janela do carro

Os óculos que os bebês utilizam após uma cirurgia de catarata são especiais. Afinal, o bebê não está com um problema tão simples como refração errada da luz: ele removeu o cristalino, que é a parte dos olhos responsável pela filtragem e focagem da luz para formar as figuras. Por isso, as lentes costumam ter gradações muito altas.

Meu filho começou a usar óculos no mês imediatamente após a cirurgia. No momento em que finalmente a atendente pousou o óculos em seu rostinho pequeno, meu companheiro virou nosso filho de frente pra mim, para que a primeira pessoa que ele visse fosse a mãe.

Eu estava muito animada, mas pouco esperançosa que ele enxergasse e me reconhecesse logo de cara, como já tinha lido a respeito. Uma das consequências naturais da catarata é o estrabismo – mas não era só uma questão estética: o estrabismo muito forte pode prejudicar a visão, distorcendo a imagem. Por causa da catarata, meu filho tem hipermetropia. E assim foi: quando colocou os óculos, parecia que nada mudou.

Um segundo incômodo de decepção no ar e a dona da ótica nos disse: “Pode parecer que não mudou nada, mas você vai ver a diferença que vai fazer daqui pra frente! Os olhinhos dele ficam mexendo assim, sem controle (chama-se nistagmo), mas daqui a pouco já vai focar melhor e controlar mais!”. E foi assim mesmo.

Estimulando a visão em casa

Mesmo não tendo enxergado tão bem à primeira vista, quando voltamos para casa e colocamos nosso filho no bebê conforto colado à janela do carro, ele foi todo o caminho sorrindo euforicamente enquanto olhava pra fora. Foi tão lindo! Era um sorriso de orelha a orelha, de deslumbramento, de boca arreganhada e olhos maravilhados. Não há dinheiro que pague esse momento e eu quase chorei de emoção, sentada ao seu lado.

Como não tínhamos nenhum centro ou instituto que fizesse estimulação visual na cidade, naquela altura, fazíamos nós mesmo em casa. Algumas das atividades eram:

  • Tapete com brinquedos: eu o colocava num daqueles tapetes de brincar, com bichinhos pendurados em um arco que passava por cima do tapete, para que ele se esforçasse para ver e focar nos brinquedos.
  • Brinquedos luminosos: colocávamos os brinquedos à frente, movimentando vagarosamente de um lado para o outro, para ele seguir com os olhos. Isso ajudava a fortalecer os músculos e nervos dos olhos e a desenvolver o foco.
  • Cores contrastantes: figuras e objetos com cores contrastantes em preto e branco, vermelho e amarelo ou outras cores fortes chamavam muito a atenção e o ajudavam a delimitar os contornos, formas e cores.
  • Fantoches e dedoches: usando feltro, costurei em casa fantoches de dedo e de mão e apresentava para ele, mostrando as partes menores do fantoche (o nariz, depois a boca, os olhos e por fim o rosto, aumentando gradativamente) para ele aprender a focar.

Ele foi desenvolvendo bem, aprendeu a controlar os olhos e o estrabismo melhorou consideravelmente (embora só tenha sido 100% resolvido através de intervenção cirúrgica, feita aos sete anos de idade).

Se tiver interesse, recomendo o livro abaixo para aprender várias atividades que podem ser feitas em casa para estimular a visão dos pequenos:

Consequências da catarata congênita no desenvolvimento

Quando bebês, pode ser difícil reparar em como a catarata pode impactar a vida da criança. Afinal, bebês só comem, dormem e brincam, não têm muitos círculos sociais nem tarefas da escola. Logo, como saber?

Na primeira infância, os marcos gerais de desenvolvimento foram todos dentro do esperado. Sentou com 6 meses, andou com 15 meses, os movimentos de pinça e de pular num pé só, que vieram com o tempo, foram todos dentro do “prazo” normal.

Uma vez na creche e no jardim de infância, ou seja, quando a criança passa a estar num meio social distinto, interagindo com outras crianças e adultos, com tarefas para fazer, fica mais fácil perceber onde ela pode precisar de ajuda. Por exemplo, na pré-escola, a turma do meu filho fez uma apresentação de dança numa festa escolar. Ele visivelmente tinha alguma dificuldade em seguir os movimentos (pois não é fácil ver esses movimentos à distância) e às vezes distraía com todas aquelas luzes do ‘palco’.

Na primeira série, ele fazia atividades extras com uma educadora especializada em sub-visão, para ajudá-lo a desenvolver melhor as habilidades visuais. Essa educadora, reparando as dificuldades que ele parecia ter nas atividades das aulas de artes, solicitou que a escola colocasse uma mesa com tampa reclinada para que ele pudesse fazer os exercícios. Isso ajudou muito!

Nos parquinhos e ambientes exteriores, ele sempre foi muito cuidados para subir e descer degraus ou mesmo simplesmente correr em determinados tipos de pisos, pois ver contrastes de longe ainda pode ser difícil de vez em quando. Na escola, ele tem notas excelentes em todas as disciplinas, mas notas “suficientes” em artes e educação física, pois são disciplinas que exigem mais da visão e motricidade.

Contudo, esses pequenos “detalhes”, que certamente impactam a sua maneira de se relacionar e acabam resultando em muitas manchas escuras nas pernas, que denunciam a peraltice, nunca foram impeditivo de uma vida completamente normal. Ele é uma criança 100% autônoma, com uma vida quase… banal, simplesmente comum.

Antes de tudo, é preciso paciência. Às vezes colocamos nossos receios à frente das habilidades dos nossos pequenos e isso é um grande erro. As crianças têm seu tempo, diferente do nosso, e cada qual tem sua necessidade.

Nossos filhos não são doentes, não são menos capazes que os outros por conta da catarata. Eles se desenvolvem normalmente, tem uma vida super normal e a única diferença é que você vai ter uma despesa que os outros pais não tem: comprar óculos uma vez por ano porque seu pequeno furacão vai riscar as lentes até ficar impossível enxergar alguma coisa!

Foco nos colírios, respeite e siga piamente essa fase, é de extrema importância! Foco nos estímulos: procure na internet, faça estimulação em casa, procure um instituto na sua cidade ou pague algumas sessões com uma Terapeuta Ocupacional. Tudo isso fará enorme diferença para o desenvolvimento do seu filhote: é uma ajuda a mais e um obstáculo a menos.

Agora, mãos à massa!

Sobre a autora

    Deixe um comentário

    O seu endereço de e-mail não será publicado.

    Vila Materna é um portal de informações baseada em evidências científicas sobre gestação, maternidade e educação e com firme compromisso com a perspectiva feminista e os direitos das mulheres e crianças.

    Inspiração

    “A mulher viva e politizada afirma ser uma pessoa quer esteja ligada a uma família ou não, quer esteja ligada a um homem ou não, quer seja mãe ou não”.


    – Adrienne Rich, Of Woman Born: Motherhood as Experience and Institution

    Aline Rossi © 2020. Todos os direitos reservados.