Meninas menstruam cada vez mais cedo e, apesar dos avanços feministas, a menstruação e o ciclo feminino continuam um tabu imerso em silêncio, vergonha e desinformações. Explicar e falar sobre a primeira menstruação com nossas filhas pode ser o primeiro passo para quebrar a roda patriarcal sobre nossos corpos e a saúde reprodutiva feminina.

primeira menstruação como falar

A maioria de nós provavelmente não foi orientada pelas nossas mães ou outras mulheres próximas sobre o que fazer quando tivemos a primeira menstruação.

Muitas levamos o sermão sobre “agora você é uma mocinha”, geralmente acompanhado de uma lista de coisas que não poderíamos mais fazer. Outras receberam vergonha e culpa. Outras foram deixadas no escuro, pensando que estavam doentes ou que tinham sofrido um ferimento e com medo de apanhar ao falar sobre isso.

“Lembro até hoje da minha primeira menstruação. Senti muita vergonha e muito medo de falar para a minha mãe. Tinha medo de ela achar que eu tinha feito alguma coisa e me bater… Eu não fazia ideia do que era aquilo. Vi o sangue e achei que ia morrer”, contou-me um dia minha mãe. Isso nos anos 60.

Muitos anos depois, quando chegou a minha vez, eu já sabia o que era (algumas amigas já tinham tido a menarca e comentavam sobre isso na escola), mas eu ainda não sabia o que fazer. Vivendo com minha mãe, tendo 5 irmãs e uma sobrinha mais velha que eu… E, mesmo assim, a única coisa que recebi foi um absorvente e uma lâmina gilete. “Você agora é mocinha, tem que se cuidar e depilar”, ouvi. E a roda continua a girar.

O tabu da menstruação e seu impacto na vida das meninas

A primeira abordagem (ou a falta dela) quando passamos pela menarca marca a relação com os nossos próprios ciclos menstruais e os nossos corpos, geralmente de uma forma negativa. E esse problema pode se estender quando algumas de nós têm filhas que também chegam ao fatídico dia da primeira menstruação: como falar com nossas filhas sobre menstruação se nunca ninguém falou conosco? Como explicar a menarca?

É difícil fugir ao ciclo vicioso que torna mais fácil não tocar no assunto ou, quando se fala sobre isso, fazê-lo de forma culpabilizante, incutindo vergonha ou sentimentos negativos às meninas relativamente ao seu próprio corpo, ainda que essa não fosse a intenção.

A confusão de estar entrando na puberdade, os hormônios, as mudanças, o “perigo” de engravidar e de “chamar a atenção” dos meninos e homens porque começa a desenvolver seios, o aparecimento das espinhas… Pode ser muita informação para lidar quando se tem apenas 10 anos (ou perto disso).

Quantas de nós crescemos achando que a menstruação era sujeira? Que a menstruação, algo que nosso corpo produz naturalmente e que nos acompanhará pela maior parte da vida, é fonte de vergonha e deve ser escondida com o máximo de cuidado de todos os outros, como se ninguém soubesse que mulheres menstruam? Compramos absorventes às escondidas, morríamos de vergonha se alguém visse a marca do absorvente nas nossas roupas, éramos zombadas e diminuídas se o sangue manchasse nossas roupas.

Assim, é importante nos questionar de que forma essa ideia de que algo tão natural do nosso corpo é simplesmente sujo e vergonhoso impacta a construção psicológica, a identidade e a personalidade de cada uma de nós no processo de crescimento. De que forma isso molda e influencia a nossa relação com o nosso corpo e as transformações que naturalmente acontecem com qualquer pessoa ao longo da vida.

Segundo o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) e o Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), mais de 60% das adolescentes e meninas já deixaram de ir à escola ou a outro lugar que gostam por causa da menstruação. Outra pesquisa sobre as “Questões emocionais relacionadas à vivência da menarca” mostrou que mais da metade das adolescentes entrevistadas “relatou ter sentido raiva, envergonhada, constrangida, não ter gostado e/ou ter se sentido mal frente às colegas.”.

Claro que, como tudo na vida, a mãe e a família, de modo geral, não são os únicos atores que podem influenciar e contribuir para uma educação melhor e mais saudável para as crianças, inclusive quando falamos de menstruação e saúde feminina. As instituições de ensino, de saúde e comunitárias também podem e devem ser aliadas nesse processo. Mas vamos falar mais a fundo sobre como abordar, então, o tema com as filhas.

O que NÃO DIZER à sua filha na primeira menstruação?

“Você agora virou mocinha”

Meninas têm entrado na puberdade cada vez mais cedo, segundo estudos científicos. Geralmente, a primeira menstruação acontece entre os 8 e os 13 anos e, dependendo da idade, essa frase pode ser muito problemática.

A ideia de “virar mocinha” incute uma noção de crescimento e sexualização (ainda que não seja a intenção da mãe, já que, geralmente, essas ideias são fomentadas pela cultura, pela educação sexista, pelo contexto, etc). Dizer a uma criança que ela “virou mocinha” é interromper bruscamente a noção que a própria criança tem de si como sendo criança, podendo influenciar seu comportamento social.

Ela pode ainda ser um menina que brinca de bonecas e quer continuar brincando, mas que a partir daquele momento vai se percepcionar de outra maneira relativamente ao seu grupo de amigas, se sentir limitada ou impulsionada a outra forma de “estar” socialmente, podendo gerar sentimentos negativos e de vergonha sobre as transformações do seu corpo.

O ideal é deixar que a criança viva naturalmente, sem acelerações impostas, essa fase de transição da infância para a adolescência. Ao seu ritmo.

“Você agora tem que se cuidar porque pode engravidar”

Claro que é importante falar sobre a saúde reprodutiva e explicar como funciona o ciclo, mas daí para responsabilizar a criança por evitar uma gravidez é um grande salto…

Além do fardo pesado e aterrorizante (especialmente se você tiver 9, 10 ou 11 anos!) de ter que “evitar uma gravidez” porque teve a primeira menstruação, é importante repensar o que essa abordagem ensina às meninas. Isto é, uma coisa é dizer que seu corpo agora tem a capacidade de gerar uma vida (o que passa uma mensagem mais positiva), outra coisa é dizer que seu corpo é uma “bomba-relógio” prestes a engravidar e interromper a infância.

Vale lembrar que, em última instância, essa é a mesma base do pensamento machista que nos afeta enquanto mulheres adultas na sociedade. Por exemplo, quando mulheres são discriminadas em entrevistas de emprego porque podem engravidar. Como se a gravidez fosse um “perigo” e, sobretudo, uma responsabilidade única e exclusivamente da mulher.

“Mas já? Tão novinha… Já tem pêlo lá embaixo?”

Essa podia dispensar explicações, mas não só é muito embaraçoso e invasivo que alguém pergunte se você tem pelos nas partes íntimas. Além disso, dizer claramente que ela é “tão novinha” pode fazê-la se sentir deslocada e desconfortável nos seus grupos sociais.

Por último, mas não menos importante…

Não saia anunciando pela casa toda que “Fulana já menstruou”. É embaraçoso, é invasivo e é desrespeitoso. Isso é algo da intimidade dela, não um assunto público.

Ok, então… O que dizer?

Como falar sobre a primeira menstruação?

Antes de começar, pergunte o que ela quer saber

Sua filha talvez já tenha visto algumas informações nas aulas de ciências da escola, mas nada substitui uma conversa privada e aberta sobre o que é a menarca e o que virá a seguir. As chances de ela não ter estado confortável para tirar dúvidas sobre algo tão íntimo na escola, à frente dos colegas, é muito alta. Então seja a pessoa que tira as dúvidas!

A primeira menstruação pode trazer muitas inseguranças sobre os sintomas, sobre o que está sentindo, as mudanças no corpo e os cuidados que ela deverá ter de agora em diante relativamente à própria higiene. Comece pelo que ela sabe, perguntando o que ela quer saber e que dúvidas têm.

Então, explique o que é a menarca e como a primeira menstruação pode ser diferente das outras, os sintomas pré-menstruais que ela pode ter sentido e como serão os próximos ciclos.

Higiene e Menstruação: Atenção para a saúde íntima durante esse período

Mostre as alternativas de higiene menstrual

Quando o assunto é ciclo menstrual, não existe receita de bolo. O absorvente pode ser a melhor opção para umas, mas pode ser o terror de outras. O ideal é apresentar as várias opções e deixar a menina experimentar aquela que melhor servir e adequar ao seu corpo. Algumas sugestões:

  • Absorventes com abas ou sem abas
  • Absorventes ecológicos reutilizáveis
  • Copo menstrual
  • Calcinha menstrual

O uso de tampão, “absorvente interno” ou “OB” pode ser uma alternativa para conseguir ir à piscina ou rio quando seu uso é de poucas horas, contudo há muitas controvérsias sobre o uso do mesmo, que pode conter químicos danosos à flora vaginal, além de exigir um manuseio específico que adolescentes que menstruam pela primeira vez podem não ter.

Você sofre com a TPM? - Dra. Ana Cicília

Explique sobre as alterações hormonais e métodos para lidar com isso

Explique sobre os sintomas pré-menstruais (TPM) e como podem ser diferentes para cada uma. Ao falar das opções comuns, você dará meios para que ela identifique quando o período está chegando e consiga se planejar melhor, além de ajudá-la a identificar mais facilmente o que está por trás das emoções que está sentindo.

Embora seja importante explicar as alterações hormonais (de forma clara, científica e adequada à idade da sua filha), tente não focar muito no lado negativo, para não influenciar a percepção dela de forma tendencialmente negativa. Ela vai descobrir sozinha, certamente. Lembre que é algo normal que todas passam e que, com o tempo, aprendemos como gerir e passar por isso sem estresses.

Fale sobre os chás, sobre a alimentação e alternativas para aliviar possíveis cólicas (como bolsa de água quente ou deitar numa posição diferente). Isso ajudará muito!

Diga quem ela pode procurar quando precisar de ajuda fora de casa

Acidentes acontecem. Quem nunca manchou a roupa quando estava na escola ou esqueceu o absorvente e foi pega de surpresa quando estava na rua? Nessas situações, é importante que ela saiba com quem pode contar quando você não estiver por perto.

Ofereça-se para ajudá-la a passar por isso

Às vezes, a melhor ajuda é um abraço ou uma companhia ao nosso lado. Por isso, transmita claramente à sua filha que você está sempre disponível para ajudá-la, mesmo que for apenas para comprar produtos de higiene menstrual, ou para desabafar na TPM. Isso dará segurança e conforto (mesmo que ela seja uma adolescente que te ache uma adulta “cringe”).

Parece muita informação, mas não é preciso se assustar e fazer da conversa um momento de pânico para mãe e filha. O ponto principal talvez seja partir da sua própria experiência e se perguntar: como você gostaria que tivessem lhe falado quando você teve a sua primeira menstruação?

Sobre a autora

  • Vale deixar claro a importante de desde de cedo o início de prevenção e contato com a ginecologista.
    N vi em nenhum momento falando sobre a importancia disso. Precisa quebrar o tabu de que só vai para ginecologista quando começa vida sexual e N é.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Vila Materna é um portal de informações baseada em evidências científicas sobre gestação, maternidade e educação e com firme compromisso com a perspectiva feminista e os direitos das mulheres e crianças.

Inspiração

“A mulher viva e politizada afirma ser uma pessoa quer esteja ligada a uma família ou não, quer esteja ligada a um homem ou não, quer seja mãe ou não”.


– Adrienne Rich, Of Woman Born: Motherhood as Experience and Institution

Aline Rossi © 2020. Todos os direitos reservados.