A popularização das fotografias de parto ajudaram a mudar o olhar sobre esse acontecimento, mas as redes sociais trouxeram a pressão estética para o colo das mulheres.

A senhora lembra do seu primeiro parto?”, perguntei à bisavó do meu filho, uma senhora de 93 anos de idade que já começava a ter dificuldades de memória pela idade avançada. “Lembro de tudo: hora, dia, a roupa que usava, o rostinho dele, o cheiro…”, respondeu-me a bisa.

O primeiro parto de dona Isabel tinha sido há quase 70 anos. Uma vida. E 70 anos depois, com problemas de memória devido à idade, ela ainda lembrava cada detalhe de cada um dos seus três partos. “Até do pano da parteira”, disse-me ela.

O parto é realmente um momento único. E esse não é um ponto menor na luta pela humanização do parto. Embora haja uma forte investida para afastar mulheres desse acontecimento que ocorre em seu próprio corpo e torná-lo todo sobre um “procedimento médico-cirúrgico-hospitalar” e nada sobre “autonomia e protagonismo da mulher e bem-estar do bebê”, o fato é que elas não se esquecem de seus partos, seja a experiência positiva ou traumática.

E é aqui que a fotografia de parto entra em cena.

Podemos considerá-la uma fotografia documental, uma vez que a fotografia de parto registra um momento e conta a sua história através desse registro. As emoções, os processos, o ambiente: a dor, a alegria, o alívio, a união, o medo, a entrega, o esforço. Afinal, o parto é bem mais do que o nascimento do bebê.

Documentando a violência obstétrica na história

A fotografia de parto é recente, afinal, a própria invenção das câmeras fotográficas o são. Foi só em meados do século dezenove que a primeira câmera fotográfica foi inventada e, com a tecnologia da época, não era muito fácil conseguir um exemplar.

Se, por um lado, as câmeras para fotografar não eram acessíveis a qualquer um, por outro, o parto também não era um evento hospitalar. A criação e popularização de hospitais públicos são muito recentes e, mesmo para países desenvolvidos (como é o caso de Portugal), dar à luz em casa era a regra até a década de 50 e 60, embora em condições que nada têm a ver com o parto domiciliar planejado ao qual as mulheres podem ter acesso hoje.

Aliás, as poucas fotografias de parto que temos das décadas passadas mostram exatamente a falta de humanização, de cuidados, de condições, de direitos e a grande violência a que eram submetidas as mulheres nas instituições médicas.

A foto abaixo mostra um procedimento que era a norma para as mulheres parturientes (e que hoje felizmente pode ser denunciado como violência obstétrica). Enfermeiras imobilizam uma gestante deitada na maca, segurando seus pés e mãos. Isso muitas vezes fazia com que mulheres ficassem com hematomas e machucados por causa das amarras.

Créditos da imagem: site BabyGaga

A “evolução” não foi muito melhor: uma espécie de “camisa de força” feita de lã de ovelha era utilizada para prender os braços das mulheres em forma de “U” e, por vezes, também enrolada em volta da cabeça para usar como “almofada”. Isso porque já começavam a aplicar a “anestesia” para aliviar as dores do parto: o “Crepúsculo do Sono”, como era chamado, era uma mistura de morfina e escopolamina, uma droga que causa amnésia temporária.

As mulheres que recebiam essa “anestesia” pensavam que ficariam completamente inconscientes durante o nascimento do seu filho, quando na maioria das vezes isso não acontecia e elas acabavam se debatendo muito durante o trabalho de parto (daí a camisa de força). O site Baby Gaga afirma que, “por vezes, deixavam as mulheres amarradas durante dias até que o efeito da mistura se esgotasse completamente”. 

Camisa de lã em forma usada para amarrar mulheres durante o parto

A luta feminista e a fotografia de parto como aliada

O surgimento do movimento feminista, lutando pelos direitos das mulheres e pelo reconhecimento das diversas formas de violência a que eram submetidas, foi crucial para mudar o paradigma do parto.

A forma como o parto evoluiu de um acontecimento natural que ocorria com poucas condições de higiene, dada a própria falta de condições sanitárias das décadas anteriores, para um evento médico em que a mulher não tem voz, é desinformada por conveniência de agendas de mercado e, finalmente, é “salva” por um homem que “faz” o parto por ela não era mais um cenário aceitável na sociedade moderna.

A luta pela humanização do parto é, antes de mais, uma luta feminista. Defender que as mulheres têm direito à informação de qualidade para tomarem suas decisões, que nenhum procedimento pode ser feito em seu corpo sem o seu consentimento, que não deve ser submetida à violências e procedimentos desnecessários e que toda a assistência deve ser embasada em evidências científicas mudou o jogo nas instituições.

A maior participação das mulheres na medicina, nas ciências sociais e políticas, o crescimento de um ativismo organizado formaram as condições necessárias para conectar feminismo e ciência e mudar de vez o parto para melhor.

A humanização do parto, como a maioria das pautas do movimento feminista, é uma luta que ainda está acontecendo hoje. Não está “terminada”. Só no Brasil, estima-se que 1 em cada 4 mulheres sofrem violência obstétrica no parto, com maior índice entre mulheres negras e pardas. A violência vai desde negar acesso à informação até manipulação emocional ou a violência física em si, como o chamado “ponto do marido”.

A luta pela humanização do parto não é nova, nem mesmo no Brasil. Profissionais e ativistas como a PhD Melania Amorim, a parteira Ana Cristina Duarte e o Dr. Ricardo Jones são atores e vozes importantes na luta contra a violência obstétrica e o parto humanizado há, no mínimo, mais de 20 anos. Nesse contexto, a fotografia de parto surgiu como uma forte aliada.

Mudando o olhar sobre o parto

Um dos maiores benefícios trazidos pela nova fotografia de parto foi, sem dúvidas, um olhar diferente e mais humano sobre o nascimento.

Antes da popularização da fotografia de parto, a maior referência popular sobre parto era, para a maioria das mulheres, as cenas chocantes de novelas e filmes. Ali, as mulheres estavam sempre em grande sofrimento, chorando, gritando a plenos pulmões, sangrando como se fossem morrer e demonstrando uma dor insuportável.

doula de parto
Foto de um parto domiciliar, clicada pela fotógrafa Elis Freitas, em Cuiabá. A fotógrafa conta que, após as fotos desse parto viralizarem, as gestantes que a procuravam pareciam mais preocupadas com o “cenário” do parto para as fotos.

Aliado à narrativa machista de que mulheres são fracas e não aguentariam passar pelo parto ou a narrativa cesarista, incentivada por muitos médicos por conveniência de agenda, de que o parto normal é arriscado, de mulheres que não aguentariam a dor de um parto normal, ou tinham um “bebê grande demais” ou, ainda, pelo famoso mito do “cordão assassino”, cria-se uma mistificação sobre o parto, envolta de medo, dor e sofrimento. Essa é a imagem do parto normal para boa parte das mulheres.

As fotografias de parto, hospitalares ou domiciliares, ajudaram mulheres e homens a verem o parto com novos olhos. Mostraram um processo, uma história, o desenvolvimento de um acontecimento único, a espera de um novo membro da família, as emoções e o apoio. Cada detalhe, desde o ambiente às expressões emocionadas de choro e de riso daqueles que testemunham a chegada do bebê, compunham a matéria-prima do ou da fotógrafa.

As fotos de mulheres dando à luz calmamente numa banheira ou no chuveiro da própria casa, com luzes e flores, segurando a mão de seu parceiro ou parceira, rodeada das suas coisas contrasta com a ideia de parir num hospital de ambiente indiferente, frio e rodeado de desconhecidos que dizem “para de gritar, senão vai ficar sozinha”.

Um mundo novo sobre o parto era revelado: o mundo do parto possível. Não o dos medos e do desconhecido, mas o da aventura, da experiência respeitosa e positiva, do aconchego e acolhimento. Isso mudava a forma de ver, de pensar e de falar sobre parto. Sobretudo, abriu os horizontes para que mulheres soubessem não só aquilo que queriam no parto, mas aquilo que definitivamente não podiam aceitar mais, o que não era, de fato, “normal”.

Assim, criaram-se associações dedicadas à fotografia de parto, como a Associação Internacional de Fotógrafos de Nascimentos; mostras públicas, nacionais e internacionais exibindo as mais belas e impactantes fotografias; premiações para os melhores registros.

E, claro, a fotografia de parto ganhava cada vez mais espaço nas redes sociais, inclusive abrindo espaço para a reflexão e crítica de muitas das fotos serem censuradas como “nudez”, “pornografia” ou “conteúdo violento”, mostrando uma sexualização do corpo da mulher, mesmo num momento tão natural quanto o nascimento.

De aliada à parte do problema

Elis Freitas - YouTube
Elis Freitas é doula de parto e fotógrafa profissional. Já fotografou centenas de gestantes, inclusive fora do Brasil, e suas fotos já foram capa de revistas internacionais.

A exposição nas redes sociais ajudou, certamente, a popularizar não só a fotografia de parto, como também os debates sobre humanização e as reflexões sobre hiperssexualização do corpo da mulher na maternidade.  Contudo, a exposição também tem o seu lado negativo. E não foi diferente com a fotografia de parto.

Com a visibilidade veio também a pressão estética e a preocupação em “estar bonita” para o parto e para as fotos, uma pressão que certamente não fazia parte da agenda da humanização e que, em última instância, é parte do problema geral que as mulheres enfrentam e que pode interferir, de fato, no parto.

Elis Freitas, fotógrafa profissional de parto com fotos premiadas internacionalmente, conta sobre um parto que acompanhou:

“Mesmo no expulsivo, a parturiente ficava me perguntando se eu ia publicar as fotos dela, pedindo para a doular arrumá-la para que ela ficasse bonita e a foto ‘bombar’”.

A fotógrafa diz ter notado a mudança ao longo do tempo, com mais mulheres preocupadas em estarem bonitas nas fotos do parto. “Não sei dizer se foi só no Brasil ou no mundo todo”, diz ela; para Elis, isso está relacionado à “glamurização” e “elitização” do parto.

“A minha filha agora tem 11 anos e, na época do parto, isso era considerado coisa de gente mais alternativa. As mulheres de classes mais elevadas preferiam a comodidade da cesárea”, diz ela. “Quando glamurizou, que mudou o público, aí sim vieram as mais preocupadas com a própria beleza no momento”.

Estamos falando não só de uma pressão estética sobre a própria aparência da mulher, que até no momento do parto precisa estar “apreciável”, cuja responsabilidade primeira parece ser a de “ser bonita”, mas também uma espetacularização do parto. Ambos estão, provavelmente, no exato oposto da humanização. A pressão estética, aliás, há muito é utilizada contra mulheres para convencê-las a se submeterem a cesáreas sem indicação médica real.

A doula e educadora perinatal Adele Valarini, que acompanha partos há 10 anos, acredita que as redes sociais tiveram um papel crucial nisso.

“Eu comecei a trabalhar como doula em 2011. Naquela época, pré-Facebook, o que mais fazia sucesso eram os relatos de parto extremamente detalhados. As fotografias apenas acompanhavam o relato, como um suporte para transmitir a intimidade do momento, uma espécie de fotojornalismo”, diz ela. “Com a chegada do Instagram, isso mudou de figura: era a foto quem contava a história e o relato ficou cada vez mais limitado a um número menor de caracteres. Então a foto acabou virando o ponto principal de tudo, fazendo com que as pessoas se preocupassem como se colocavam na fotografia”.

“As redes sociais mudaram muito a forma como a gente está se relacionando. Desde parto, pós-parto, puerpério, amamentação”, diz a educadora perinatal “Embora cada vez mais pessoas estejam tendo contato com esse tema, estão tendo contato de uma forma muito pasteurizada, reduzida a uma pílula imagética.”

Já a doula e consultora de amamentação Tuanny Godoy acha que o problema começa antes mesmo do parto. “Eu vejo muito isso nos ensaios de gestantes. Uma sexualização desnecessária”, afirma. “Não quero dizer que só porque a mulher está grávida ela não pode ser sexy, como se tivesse que ser uma ‘Virgem Maria’, não é isso. É justamente a pressão estética, isso de ter que ser bonita, a pele tem que estar magnífica, nunca é uma coisa natural.”

O que é parto domiciliar?. Dica: nada a ver com o parto da sua avó… | by  Aline Rossi | Vila Materna | Medium
Tuanny Godoi, à esquerda, doulando um parto domiciliar em Cuiabá-MT.

Tuanny ainda acrescenta que vê essa preocupação até na hora de escolher a equipe de parto:

“Tenho percebido que há pessoas dando mais importância ao fotógrafo do que, por exemplo, pagar a disponibilidade de um médico que sabidamente é mais humanizado do que outro, que não cobra nada. Ou preferem pagar um fotógrafo do que uma doula ou uma fisioterapeuta. E o resto é no ‘a gente se vira’, porque a foto tem que estar bonita”.

A doula, contudo, não acha que exista um problema na fotografia de parto em si, mas sim na forma como é feita.

A parcela de culpa dos profissionais no parto

Se, por um lado, as redes sociais ‘envenenaram’ o terreno desse cenário, por outro, os e as profissionais do parto também podem ter sua parcela de culpa.

Adele Valarini Doula (@AdeleDoula) | Twitter
Adele Valarini é doula e educadora perinatal, acompanha partos há 10 anos e já participou de várias formações de novas doulas.

A fotógrafa Elis Freitas, em concordância com a educadora Adele Valarini, também acha que a questão estética pode, até certo ponto, depender do perfil das gestantes. “As gestantes tendem a escolher doulas à sua semelhança”, afirma. Ou seja, tendem a buscar profissionais que validem a sua busca por uma certa estética na fotografia.

Adele acrescenta que a postura do ou da fotógrafa também interfere

Muitas fotógrafas acabam tirando um curso de doula para aprender a se colocar no parto, mas já trabalhei com uma fotógrafa que só fazia fotografia de cesáreas e quando acompanhou um parto normal, a fotógrafa ficava pedindo para a gestante se colocar de certa forma ou ficar mais tempo em determinadas posições para poder fotografar”, afirma Adele.

No final, a pergunta para a qual ainda temos que descobrir a resposta é: qual a raiz e o impacto da espetacularização da maternidade? De que forma esse retrato fomentado e, de certa forma, até artificial da gestação e do parto podem impactar a experiência das mulheres e famílias no puerpério e pós-parto?

O “luto do parto dos sonhos” é uma experiência mais comum do que parece. Tem a ver com uma idealização e projeção de uma experiência de parto que depois não é cumprida, um sentimento muito comum entre mulheres que sonharam com um parto normal ou um parto natural domicilar e tiveram de recorrer a uma cesárea, por exemplo, ou que viveram um “parto roubado“. As fotografias não são as únicas culpadas, é claro, mas podem não ser tão isentas quanto isso.

As imagens ajudam a construir nossa referência de mundo, a refletir nossas próprias projeções. Assim como muitas vezes é um choque para mães quando descobrem que seus filhos apresentam alguma condição sindrômica ou deficiência, porque havia uma idealização do bebê, também é um choque quando a experiência de parto não corresponde às expectativas alimentadas durante 9 meses.

As redes sociais, como o Facebook e Instagram, ajudaram a popularizar um grande número de blogueiros, revistas, influenciadores de diversas áreas profissionais, incluindo no meio do parto humanizado. Tudo é sobre conteúdo, sejam em texto, imagem ou vídeo. É natural que uma mulher gestante tente se rodear de fotografias, relatos e vídeos que espelhem a sua expectativa do parto “perfeito”.

Andréa Atilano, psicológa da Rede de Atenção e Pesquisa em Psicanálise e Parto (Rappa), defende que o parto é uma experiência que não pode ser controlada e, por isso, é preciso redobrar cuidados para não idealizar o momento. Em entrevista ao jornal Estadão, a psicológica afirmou que “O parto idealizado sempre será diferente do real”. A psicóloga continua: “A própria ideia de um parto espetacular, heroico, pode ser muito opressora. Este é um evento fisiológico e as intercorrências não podem ser todas eliminadas. Assim, o ideal é aliar esse fato com informação e uma equipe acolhedora”.

Estaremos, então, sem saída enquanto houver redes sociais? Adele é otimista sobre isso:

“Acho que todo movimento tem um contra-movimento”, diz a educadora perinatal. “Por um lado existe essa tendência de idealizar a maternidade, de representar mães como Virgens Santíssimas. Mas, por outro lado, também há um movimento bastante forte de apresentar a maternidade real, sem romantização sobre o parto, pós-parto e amamentação”

Sem dúvidas, a raiz desse problema está no mercantilizar de uma pauta de luta das mulheres: reduzir até os mínimos detalhes à lógica de mercado, seja sobre estética ou não, contribua isso para a romantização da maternidade ou não. O fato é que o mercado sempre, historicamente, se alimentou do controle dos corpos femininos.

A questão é: queremos mesmo permitir que isso aconteça até na gestação e no parto? E qual o preço a pagar pela pasteurização da maternidade?


Onde encontrar as entrevistadas:

  • Elis Freitas tem formação como doula de parto e atua como fotógrafa profissional. Atualmente, vive fora do Brasil. Para contactá-la, pode visitar o seu site profissional: www.elisfreitas.com
  • Tuanny Godoi é Doula de Parto e Pós-Parto, Consultora de Amamentação e faz parte do grupo Alcateia de Doulas, em Cuiabá (Mato Grosso). Pode ser contacta através da sua conta no instagram @tuannygodoi.
  • Adele Valarini é doula de parto e educadora perinatal. Pode ser encontrada no Instagram @adeledoula

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